07 - Lutas e partida

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O dia em Rio Contrário transcorreu normalmente. Pessoas iam e chegavam, trabalhavam e se ocupavam de suas obrigações. Cidade de três rios, sua população vivia basicamente da pesca. Como conseguiam controlar a água e modificá-la ao ponto de solidificação, exportavam seus peixes a várias cidades e vilarejos vizinhos, sem medo que estragassem na viagem. Levavam o produto de seu trabalho em caixas, carregadas por carroças comuns. A tecnologia não era o forte do local, e eles mal conheciam máquinas a vapor mais avançadas como os carros, que eram coisas comuns em Kailotron.

As crianças estudavam na única escola local. Todos os habitantes eram letrados. Havia um único horário para estudos, na parte da tarde.

A própria Irene fundara Rio Contrário, dizia-se, há séculos. A história da cidade contava que, depois de um longo período de jornada e andanças sem rumo, Irene havia chegado àquela região com um grupo de pessoas, onde encontrou os três rios. Ali decidiu assentar-se e, por muitas gerações, ela perdurou. Os anciãos de Rio Contrário podiam ratificar que Irene esteve lá desde sempre, pois ouviram relatos de seus avós ou bisavós.

Com o tempo, pessoas de diversas raças, credos e opiniões foram sendo incorporadas à população do vilarejo. Irene não fazia diferença de ninguém, permitindo que qualquer um entrasse na cidade, desde que agregasse valor ao todo, e não prejudicasse a vida em sociedade. Até hoje, Rio Contrário é procurada por pessoas rejeitadas, que não conseguem se desenvolver plenamente entre seus próprios povos seja por diferenças de opinião ou aparência.

Irene cuidava para que todos os cidadãos tivessem sempre as mesmas oportunidades e desenvolveu leis a serem seguidas para todos que quisessem adentrar o local e viver pacificamente. Injustiças, segregações e discriminações não eram toleradas sob nenhuma hipótese, e aquele que mantivesse quaisquer destas posturas, mesmo depois de advertido, era convidado a se retirar da cidade. Na verdade, a política funcionou tão bem que as pessoas oriundas de Rio Contrário realmente acreditam que a mistura de raças é benéfica, e tentar convencê-los do contrário era arrumar confusão.

Toni e Ren ficaram sabendo de toda essa história naquela mesma tarde, através de Letícia. Analisaram, mais uma vez, como Irene disfarçava tamanha importância. O mistério ao redor dela apenas aumentava. Quem seriam "os Antigos", de quem ela se escondia?

Na residência de Afonso, eles se preparavam para partir. O curandeiro de meia idade não apreciara a partida às pressas do rapaz, recomendando que permanecesse por pelo menos mais três dias. Em vista da recusa e vendo que não havia como impedir, aconselhou que não se esforçasse demais. Ainda pensativo, o homem esperou que a irmã se afastasse dele, em busca de qualquer objeto esquecido em seu quarto. Assim que Letícia lhe serviu uma última xícara de chá, agarrou-lhe pelo punho e o arrastou até a sala, o líquido quente respingando na pele de ambos.

- Olha o desperdício, senhor Afonso. Me queimou todo aqui! - exclamou enquanto tentava soprar a área atingida, de olhos arregalados.

- Pare com as gracinhas, garoto. Apenas me diga. Pretende fazer alguma besteira nessa viagem?

Toni pousou a xícara na mesa de centro e mirou os olhos dele, de repente muito sério.

- Não se preocupe. Pode ser que haja outra solução. Por isso, renovei a aposta. Só não vou deixar a fé tola me abraçar de novo.

- Tem certeza?

- Bem... Enquanto eu puder me mexer, vale a pena tentar.

Sentiu o escrutínio de Afonso sobre si, averiguando se poderia confiar em suas palavras. Era quase como se ele olhasse dentro de sua alma, despido de qualquer barreira física ou moral. Então, inesperadamente, o senhor se adiantou e o segurou pelos ombros, as duas grandes mãos firmes, fazendo com que prestasse total atenção nele.

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