17 - Luta, gelo e água

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Toni navegava numa cacofonia de vozes, cheiros, toques. Depois de um certo tempo nessa confusão sem sentido de imagens e sons, percebeu que tudo só podia ser um sonho. Mas, por mais que forçasse, lutasse e se contorcesse, não lograva êxito em despertar. Deixava-se levar, imerso naquela miscelânea sem fim, que misturava cenas do passado, acontecimentos atuais e até coisas que ele nunca tinha visto.

Recusava-se a acreditar que estava tendo alguma premonição. Sabia de alguma forma tresloucada que não se lembraria de muita coisa quando acordasse.

A mãe, Adri, Ren, Brassoforte, o Avesso, Irene, Afonso, Araí, Gerson, Ícarus... todos estavam engajados numa ridícula conversa ao redor de uma mesa redonda. Uns discutiam acaloradamente, fazendo gotículas de saliva voarem e se perderem no ar. Outros conversavam de maneira amigável, servindo-se de comida e dando tapinhas uns nas costas dos outros. Havia alguns que ele nunca vira, ou não recordava de ter visto. Um homem alto de cabelos grisalhos e rosto cínico. Um rapaz negro, profundos olhos azuis e cabelos raspados. O homem discutia com Irene, exibindo um sorriso sarcástico, observado de perto pelo mais jovem. Olhando atentamente, Toni percebeu que o ombro do garoto estava aberto num ferimento enorme, que sangrava muito. Mas daquela maneira absurda que só acontece em sonhos, ele sequer notava tal machucado. Ninguém notava. Irene parecia deveras zangada, e Toni sobressaltou-se por vê-la assim. Geralmente conversava cheia de pose e estilo, era estranha toda aquela alteração. Falava com o homenzarrão, bem mais alto que ela, como se não concordasse com nada do que dizia. Não ouvia claramente a conversa, as palavras se perdiam ao percorrer a distância até seus tímpanos. Ele voltou-se para Ren, que discutia com outro flamine. Não era Ícarus. Este era muito menor e tinha forma feminina. Era ainda mais baixa do que Ren, e ambas conversavam animadamente, como grandes amigas. Ícarus encontrava-se atrás delas, acompanhando sua interação com um ar muito interessado, um sorriso amplo rasgando o rosto em chamas. Ninguém se dava conta de sua presença, e ele também não conseguia compreender sobre o que discutiam.

Aquela cena se repetia de novo e de novo no olho de sua mente. Era angustiante. Quanto mais ele tivesse consciência de que se tratava de um devaneio e quisesse se libertar, mais perdido ficava.

Lembranças de sua adolescência também pipocavam e, algumas dessas, ele não queria reviver. O rosto ferido de Adri dançava diante de si, e ele erguia os braços em desespero, querendo esquecer, esquecer. Queria ter sido um irmão melhor, um apoio, um farol em quem a família pudesse confiar. Do seu ponto de vista, havia feito tudo errado.

Mas a voz de Ícarus flutuava em sua mente. "Você pegou a culpa e resolveu colocá-la em você. Quanto egocentrismo, não? Mas o hilário é que isso não muda nada do que aconteceu. Vocês sempre escolhem a maneira mais difícil de viver, a que causa mais sofrimento.."

Pensou em como deveria parecer ridículo aos olhos do elemental, querendo aumentar tanto a sua própria importância. Mas numa coisa ele tinha razão: sua família não o culpava por nada. Sabia disso, lá no fundo, mas não desejava que as coisas fossem assim tão simples. Era um fardo, um incômodo. Como as pessoas não se aborreciam de ter de carregá-lo sempre?

Talvez o miserável estivesse certo, e devesse deixar aquelas imagens que tanto o atordoavam no seu lugar de direito. No passado. Não fora capaz de fazer muito antes, mas agora ele era um homem crescido. Que, apesar da doença, ainda podia cuidar de seus próprios assuntos. Bastava seguir a vida de cabeça erguida, sem esquecer o sacrifício daquelas próximas a ele, mas sem martirizar-se. Sim, talvez Toni fosse capaz daquilo. Mas não estava disposto a perder a dignidade. Se aquela sua primeira (e última) jornada em busca de uma cura não desse certo, ele ainda pretendia pôr fim à própria existência, antes que fosse tarde demais. Não abriria mão disso. Ponderou por muito tempo, enquanto as imagens continuavam a se repetir.

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