20 - Consciência, poder, despertar

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Adri se sentia estranha naquela manhã. Acordara com a cabeça pesada, uma angústia no peito que não podia explicar. Preparou o próprio café, inquieta, uma sensação esquisita no ar. Aman havia saído cedo para resolver algum assunto que não quis dividir com ela. Sequer dissera para onde ia. Mas Adri sabia como a "mãe" funcionava. Ser o Coração de Magia de alguém permitia que você conhecesse a pessoa intimamente.

Enquanto misturava o café com o leite e sentava-se na cadeira da cozinha, subitamente lembrou-se do homem que tinham resgatado no centro da vila. O pobre diabo falava coisas tão desconexas, tão perdido, que o povo da praça ameaçou linchá-lo. Eram muito supersticiosos, não imaginavam que o homem simplesmente estava debilitado mentalmente. Ele teve muita sorte que ela e Aman estavam no centro comprando mantimentos. Juntas, acalmaram a turba de arruaceiros e o resgataram. Quem no lugar poderia negar um pedido de Adri, a famosa cantora, e sua mãe?

Assim que colocou o olho no homem, soube de duas coisas: ele era um tecelliano, e com certeza havia cruzado com Next Machina.

O que um tecelliano fazia naquelas terras era um mistério para ela. Mas com certeza ele vira o que não podia ser visto, e terminara daquela forma.

De todo modo, não poderiam mantê-lo ali. Assim, decidiram levá-lo à Kailotron, à renomada casa de repouso de Nicolas Anturium.

Ela raciocinava como era estranho o que tinha lhe acontecido. Não era o primeiro a se perder na Floresta Regular, mas fora o primeiro a sair dela daquela forma. Muitas vezes os incautos sequer retornavam, caindo nas garras do Avesso, que assim se alimentava. Mas o homem que resgataram estava totalmente alheio a realidade. Aquilo não podia ter sido feito pelo Avesso. Certamente era obra de Next Machina. Mas por que?

Adri suspirou, ajeitando-se melhor em seu assento. Como ele estaria vivendo em seu novo lar? Esperava que bem, a despeito de tudo.

O olho cego lhe incomodava de maneira peculiar. Formigava loucamente, como há anos não acontecia. Atribuiu o fato à sua inquietação naquela manhã. Decidida a não dar importância, terminou sua rala refeição e pôs-se a arrumar a casa. Haveria uma apresentação de canto apenas à noite, portanto teria bastante tempo livre. Tentou se focar nas tarefas a realizar. Uma teimosa sujeirinha que se recusava a sair do chão atrás da porta, a poeira que se acumulava em alta velocidade sobre os objetos... Mesmo concentrada na limpeza, algo ainda cutucava sua mente, lá no fundo.

Bufando, ela decidiu pegar as roupas sujas, lavá-las e estendê-las fora de casa. Um pouco de ar fresco certamente lhe faria bem. Enquanto enxaguava as peças com eficiência, sentiu-se reconfortada. A água estava fresca, o contato com a pele muito gostoso, visto que a manhã começava a esquentar. Uma ventania forte começou a soprar, e Adri correu para perto do varal, os compridos cabelos vermelhos sacudindo. Foi quando o avistou no horizonte.

Parou imediatamente o que estava fazendo, após pendurar apenas uma peça de roupa. Ora, se não era Newcomen! Antonio e Renata estavam de volta, finalmente!

O navio se aproximou veloz, como apenas ele era capaz. Fosse lá o que o pequeno irmão estivesse procurando, esperava que tivesse encontrado. Ele nunca disse exatamente o porquê de sua viagem inesperada ao redor do mundo. Achava que podia despistar tanto a ela quanto a Aman. Ambas sabiam que Toni partiu contando apenas metade da história, no entanto, face à situação atual, fora uma conveniência extrema que tivessem resolvido deixar o lar. De certa forma, estariam mais seguros. Ainda assim, não via a hora de dar um abraço apertado nos dois irmãos.

A nau extinguiu o seu movimento a poucos metros de alcançar a casa, e ficou ali, pairando suavemente. Logo mais os veria se jogando de lá, impacientes que eram de utilizar a escada. Ainda se lembrava quando começou a sentir emanações de magia oriundas do corpo dos dois. Primeiro Ren, depois Toni. Eles tentaram esconder pelo maior período de tempo possível, até que ela os fez abrir o jogo. Depois de discutir a questão com Aman, esta, conformada, disse que tal situação era quase inevitável. Deviam apenas manter vigilância, principalmente com Ren, que possuía os poderes mais instáveis.

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