24 - Pesquisas e decisões

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...preciso de um gênio se não devo lhe fazer nenhum pedido?

O homem com a longa barba encarou Elias, enfadado. Há tanto tempo estava ali que a luz natural o incomodava. Pediu para que a porta fosse fechada, logo que o Omag entrou. Precisava de um banho, o que só lhe concediam ocasionalmente. As unhas muito compridas estavam imundas, assim como os trapos que vestia. O cabelo, que se estivesse bem cuidado exibiria felpudos cachos, estava embaraçado e duro. Achava-se sentado em uma cadeira de madeira podre, bamba. Ao seu lado esquerdo, um catre com um colchão puído e mal-cheiroso. O chão de pedra rivalizava com a sujeira de seu próprio corpo. Próximo ao canto da parede oposta à cama, encontrava-se o buraco no qual fazia suas necessidades.

Sem parecer se importar com a situação do local e do cativo, Elias encarapitava-se na cadeira sobressalente, tão em péssimo estado quanto a outra, próximo a uma mesa capenga, à frente do homem barbado. Esperava uma resposta à pergunta feita anteriormente, com genuíno interesse no olhar.

O cativo coçou pela milésima vez a ferida no pescoço, que a sujeira não permitia que cicatrizasse. Suspirou.

- Eu já disse que não sei, Haurir Constante. Essa é a parte mais nebulosa desse estranho sonho que você teve. Mas lhe garanto. O que me narrou são os seus momentos finais. Esse, sem sombra de dúvidas, é o cenário minutos anteriores à sua morte.

Elias esfregou os dedos no queixo, pensativo. O Adivinhador possuía o dom de prever corretamente os sonhos de qualquer pessoa, além de fazer previsões e enxergar o futuro, com extrema precisão na maior parte das vezes. Certamente os Antigos enxergavam nele muito valor, por isso o mantinham ali prisioneiro. Elias não via propósito naquilo, mas sua opinião isolada não mudaria a posição do conselho.

Os sonhos. Eles começaram depois de exatos cem anos após a partida de Irene da Guilda. Exatamente na época em que seu coração voltava a ser inóspito como uma rocha. O período com Irene lhe devolveu o calor, o deslumbramento pelo mundo. Ainda que não admitisse nem para si mesmo, tornara-se uma pessoa melhor, que voltara a enxergar as cores da terra. Mas com a ausência da companheira, as cores se embotaram, a esperança alegre e ingênua hebetou, e sua visão pessimista da vida, que lhe era tão costumeira, voltou a habitar os pensamentos. Passou a viver um dia atrás do outro, como era antes de conhecer a segunda paixão.

Os sonhos vieram mostrar-lhe que a realidade era muito mais do que ele podia enxergar. Vieram dizer-lhe como era acomodado. Muitos lugares oscilavam e desvaneciam nessas ilusões. Lugares que ele nunca tinha visto antes, diferentes de qualquer coisa existente em Novea. Castelos de gelo, paisagens de metal e vidro, florestas de luz e muitas outras coisas estranhas. Em todos esses panoramas, quase sempre ela estava lá. Hana.

De alguma forma, sabia que tais cenários não eram fruto de uma mente imaginativa demais. Havia uma certeza inquietante de que eram reais. Sua extrema curiosidade inata despertou, enquanto ele desenvolvia métodos e esquemas para visitar tais locais. Aprimorou essas técnicas com conhecimentos adquiridos através de consultas diretas com a entidade conhecida como Tempo. Naquela época, de posse de todos os seus treze corações mágicos, era desnecessário artefatos elementais para sua convocação, pois Elias podia dar conta daquilo com seu próprio poder.

Por cento e cinquenta e cinco anos o Omag visitou tais planos desconhecidos, sempre em forma de magia pura, e sem nunca poder interagir de fato. Procurava por Hana. Pela companheira que sempre estava presente em cada lugar que surgia em seus sonhos, mas que nunca era encontrada.

De qualquer forma, Elias sentia-se extasiado com a descoberta da expansão da realidade, e fazia anotações extensas de cada lugar que visualizava. Com o tempo, surgiu a irritação, por não avistar a amada em parte alguma. Por que ela aparecia para ele, se nunca estava em lugar nenhum? Desejava ao menos um vislumbre, uma imagem. Sabia que não poderia tocá-la ou conversar com ela, mas queria ao menos uma visão. Era tudo o que almejava.

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