18 - Passado, morte e vida (parte 2)

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Foi o começo de tempos muito difíceis para Irene. Nessa época, uma guerra acontecia entre humanos e Lenmenthes, que ficaria conhecida mais tarde como Guerra dos Dez Anos. Os humanos, por muito tempo, foram tratados como seres inferiores, muitas vezes escravizados e mortos. Os Lenmenthes não lhes deixavam muita opção com seus poderes mentais, e os comparavam com gado. Humilhação era uma constante, uma verdadeira arma que usavam com frequência.

Ironicamente, Irene acabou escravizada por uma família humana, um dos núcleos da revolução contra os Lenmenthes. A garota descobriu, tarde demais, como era difícil resistir ao impulso elemental de servir a quem conhecesse magia. Isso aconteceu dois meses depois de deixar Saloon, sua terra natal. Ainda lhe era difícil controlar a forma de ondina, e ela só conseguia manter-se humana por um diminuto tempo.

Foi usada contra sua vontade na guerra, onde lutou algumas batalhas, momento em que descobriu que ataques mentais pouco ou nenhum efeito lhe causavam.

Ela tornou-se uma peça-chave no desenrolar da peleja, motivo de preocupação para o lado oposto, que focou seus esforços em eliminá-la. Depois de um estratagema muito bem formulado, os Lenmenthes conseguiram quebrar o pacto que ela possuía com os humanos. Mas falharam na tentativa de usá-la a seu favor. Irene perdeu outra pessoa querida no processo e, em retaliação, ensinou aos humanos uma maneira de driblar e evitar o controle mental. Não porque tivesse alguma simpatia por qualquer dos lados, mas porque queria colocar um ponto final naquela guerra estúpida. E não se importava com qual lado vencesse, desde que tudo terminasse.

Depois disso, Irene retirou-se rapidamente do olho da escaramuça, viajando para muito longe, durante meses. Como ondina ela não precisava comer, então não se preocupava em arranjar alimento. Foi então que se deparou com uma comunidade de ondinas, e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se em casa. Todos a aceitaram como uma deles, pois podiam sentir o poder ancestral que emanava de seu corpo.

Levou um ano para finalmente entender que ali também não seria o seu ponto final. Os elementais lhe ensinaram seu modo de vida, como canalizar sua energia, como ser parte da natureza. Mas seu lado humano começou a gritar em desespero, resoluto de que perderia a sanidade se permanecesse ali por mais tempo.

Nesse ponto, ela já manipulava bem seus poderes líquidos, e praticamente não possuía mais problemas para se manter na forma que desejasse.

Por cinco anos, viveu em cidades humanas, nunca se fixando num local por muito tempo. Nesse período, os ajuntamentos humanos voltaram a crescer e a se expandir, longe do domínio Lenmenthe. Estes haviam perdido a guerra rapidamente, quando a técnica de ocultamento da mente, que a própria Irene havia repassado, se popularizou. Ela achou interessante como os seres vivos se adaptavam rápido para sobreviver, assim como ela própria.

Mas não estava satisfeita. Tinha sempre que se ajustar aos lugares por onde passava, sem poder dar vazão ao que ela era na realidade. Uma mistura, uma híbrida. As pessoas não entenderiam, provavelmente a expulsariam como se ela fosse um demônio. Sentia-se irrequieta, sem sossego, seus dois lados falando alto dentro de si que deviam continuar a jornada.

Assim ela seguiu sem descanso. Em uma dessas passagens entre cidades, finalmente conheceu Mikaela, a Tecedeira, e Elias, ainda com sua alcunha de Haurir Constante. Embora o encontro não tenha sido nada amigável.

Sentada na grama junto ao limite da pequena estrada, Irene observava um gigantesco mapa que havia comprado na cidadezinha anterior, a dez quilômetros de onde se encontrava. O dia chegava ao fim, com os últimos raios de sol morrendo no horizonte. Ela queria chegar à próxima comunidade antes de escurecer, mas perdera-se no caminho. Aquela era uma via de pouco movimento e até onde podia enxergar, encontrava-se sozinha.

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