09 - Rotina, mentes e descobertas

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Henrique aguardava em Kailotron há três semanas. Era a primeira vez que visitava a cidade, então aproveitou a chance para conhecê-la melhor. As ordens eram de que permanecesse lá, portanto, isso não o obrigava a ficar o tempo todo escondido na pensão.

A cidade era surpreendentemente receptiva, mesmo com um Lenmenthe como ele. Se tivesse dinheiro no bolso, Henrique podia adentrar onde quisesse, e conversar com qualquer um, ainda que lhe fossem dispensados alguns olhares nervosos.

Os cidadãos se sentiam protegidos principalmente devido à sua guarda de elite, que era perita em proteger a mente de ataques psíquicos. Em geral, a força policial de todas as cidades era treinada para este tipo de ameaça, mas Kailotron possuía o pessoal mais capacitado.

Desta forma, Henrique podia caminhar tranquilamente pelas ruas sem disfarçar seus olhos azuis, mesmo porque, caso usasse algum truque, a guarda, que sempre patrulhava as ruas, perceberia. É claro que eles não seriam adversários reais caso o garoto resolvesse usar de fato sua habilidade. Mas ele não ganharia nada com isso, e, além do mais, estava maravilhado de poder andar livremente sem ser incomodado ou evitado.

Havia até mesmo Lenmenthes que possuíam seu próprio comércio, e isso o deixou positivamente impressionado. Conseguiu através disso alguns pequenos serviços para complementar sua renda enquanto permanecesse ali. Elias lhe deixara um suprimento de dinheiro pouco modesto, mas se sentia melhor não gastando todas as suas reservas e ser útil de alguma forma.

Henrique possuía ordens de não revelar que tipo de ligação tinha com Elias. Se perguntado, deveria apenas dizer que trabalhava para ele. Sentia-se aliviado quando ganhava folgas assim. Apesar de Elias tratá-lo bem e com um mínimo de decência, a presença do outro era esmagadora, estafante. O homem mais velho parecia querer atenção a todo o momento, gostava de falar sobre vários assuntos durante horas. A personalidade de Henrique não era tão aberta a longos diálogos, portanto ele mais ouvia do que respondia. No começo, o ódio borbulhava no âmago do jovem, pois ele achava uma insensibilidade terrível o fato de Elias conversar tão aberta e animadamente, depois da magia de controle que lhe lançara. Com o tempo, Henrique formulou a hipótese de que ele talvez não o estivesse atormentando, e sim que se sentisse desconfortável com a situação, e compensava tentando ser o mais amigável possível. Isso abrandou sua raiva, mas não o fez sentir simpatia alguma pelo Omag.

Era conhecido entre os seus semelhantes como um Lenmenthe de talento imensurável. Possuía aptidões inatas para a dissimulação e sutileza, o que lhe permitia criar ilusões e ler mentes sem ser detectado, mesmo por pessoas de sua raça. Morava em uma pequena comunidade só de Lenmenthes, e nunca havia deixado seu lar, até a chegada de Elias. A comunidade vivia basicamente da própria subsistência, mas nada os impedia de, esporadicamente, realizar algum serviço sujo. Quando lá chegou, Elias não escondeu nada da matriarca: iria precisar de um Lenmenthe habilidoso para uma tarefa obscura, por tempo indeterminado. A matriarca lhe indicou Henrique, que era o melhor de sua geração, porém sem experiência. No entanto, só autorizaria a partida do garoto se ele concordasse com o serviço. Através destes trabalhos, os mais velhos incentivavam os jovens a conhecer o mundo, testar seus limites.

Mas, no caso de Henrique, ele não tinha a menor vontade de deixar sua casa, onde auxiliava sua mãe, Lenora, que tinha uma saúde frágil. Seus ossos eram delicados e devia evitar tombos de qualquer forma. Gripes e resfriados também a acompanhavam frequentemente. Ele nunca conhecera o pai. Tratava-se de um humano de pele escura que havia encantado a mãe numa noite de inverno e sumido logo em seguida.

Um encontro foi marcado no espaçoso escritório da matriarca, para que ambos discutissem os termos do serviço, mas Henrique, em verdade, compareceria apenas para recusar a oferta. No momento em que pôs os olhos em Elias, o garoto sabia que o homem grisalho escondia muito mais coisas do que lhe falara a matriarca. Os olhos dele eram astutos e muito brilhantes. Usava um sobretudo marrom escuro, com uma capa que escondia a maior parte do corpo. Henrique não gostou de sua postura nem de seu sorriso dúbio. Por curiosidade, tentou adentrar sua mente, sutil e levemente como uma semente de dente de leão. Tocou o primeiro pensamento. A mente de Elias - e foi assim que descobriu seu nome - era um labirinto escuro, nada confortável. Percorrendo os corredores que realmente interessavam, podia ver que o homem possuía muitos conflitos e ansiava desesperadamente uma coisa. Uma coisa... nova. Ele era antigo, um ser ancestral. Por isso, parecia buscar uma espécie de sentimento novo, uma experiência diferente. Henrique não conseguia identificar claramente. Quando tentou forçar mais e identificar aquilo, encontrou um beco sem saída. Foi jogado de volta à sua própria mente, atônito. O homem também parecia surpreso. Mas logo em seguida, pareceu ficar eufórico.

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