13 - Lembrança

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Ele flutuava em um espaço escuro, ocasionalmente lembrando-se de um evento ou outro. Era como se estivesse dormindo, mas próximo do despertar, onde a mente é terra fértil para sonhos ligeiros. Enxergava o rosto da outra irmã, Adriana, e da mãe, Amanda. Adri nunca parecia ficar mais velha. Desde que eram pequenos até chegarem à idade adulta, ela não aparentava ter ficado um mês mais velha. Era linda, de longos cabelos esvoaçantes e era a única da família que era ruiva.

Toni tinha um carinho todo especial para com ela, pois muitas vezes era sua segunda mãe. Tinha certeza de que Ren se sentia da mesma forma.

Adri era doce, ligeira e leve, como uma brisa que vinha para aliviar o calor de um dia quente. A mãe deles, Amanda, era amorosa, mas muito severa. Sempre com regras para garantir a saúde de Toni e muito zelosa. Ela não media palavras e, muitas vezes, soava dura.

Nessas situações, Adri sempre vinha lhe explicar como a cabeça da mãe funcionava. Em sua ingenuidade infantil, Toni admirava a capacidade dela de saber como o mundo todo funcionava, sua paciência e gentileza em explicar tudo, ainda que "o mundo todo" fosse apenas a sua família, na verdade. Ela era independente, ajudava no sustento da casa como cantora na taberna local de Alumar, o vilarejo deles, onde ocasionalmente servia os clientes. Pessoas de vários locais diferentes vinham até Alumar apenas para ouvir a pequena jovem de cabeça vermelha soltar sua cristalina voz de veludo.

Uma luz forte o transportou para outra lembrança. Esta era cálida e feliz. Ele estava com treze anos, e tinha a companhia das duas irmãs e da mãe, em uma apresentação de artistas de rua. Apoiava uma das mãos no ombro de Ren, tentando controlar os espasmos de riso na barriga. A garota, com os olhos cheios d'água, também gargalhava. Recebeu a visão com muito carinho. Era por momentos como aquele que ele desejava ter saúde, era o local onde queria estar. Com sorrisos, companheirismo e aconchego. Era um tempo sem culpa, sem mutilações ou cicatrizes.

E então, tudo se desvaneceu. Ele se lembrou do desespero, do horror de não poder ajudar Adri, de não ser útil em nada. Recordou-se da dor que ela com certeza sentira e da sensação de agonia. Lembrou-se, de forma distante, do som que tinha acabado de ouvir, mas numa versão mais potente. O barulho ecoava pelo céu, como uma gigantesca engrenagem funcionando. Foi nessa altura que percebeu uma presença estranha entre suas memórias.

— Ora, veja! Era disso que eu estava falando. Foi quando você ficou realmente nervoso. O que tem aí para mim?

Então, Toni se lembrou dos acontecimentos recentes. Ícarus o tinha atacado e derrubado, e queria uma memória, por mais estranho que aquilo fosse. Flutuando na escuridão de sua mente, concentrou-se no brilho que o iluminava, a pouca distância. Divisou um ser fantasmagórico, mas que se assemelhava a fogo crepitando. Quando percebeu que era Ícarus, tomou um susto e se endireitou rapidamente.

— Você está... nós estamos... na minha mente?

— Que lugar melhor para extrair uma lembrança? Você faz cada pergunta boba.

— Mas eu pensei que só Lenmenthes pudessem invadir a consciência alheia dessa forma.

— Lenmenthes são criaturas fracas e vergonhosas, dado que esta é sua única habilidade. Mas o interessante é que aprendi isto justamente por ajudar um deles. Eles não podem fazer pactos, mas decidi que seria interessante eu mesmo auxiliá-los, por livre e espontânea vontade. Acho que saí ganhando nessa, hum?

O elemental não considerava de fato os Lenmenthes vergonhosos, mas o foco aqui não era a sua história de vida, mas a de Toni. Ícarus vasculhou mais um pouco e encontrou algumas memórias infantis, das quais até mesmo Toni já não lembrava conscientemente. Aquilo era muito incômodo, como se alguém lesse sem permissão um diário secreto. Toni tentou afastar a presença do elemental, mas descobriu-se incapaz. Ficou a imaginar se um Lenmenthe também possuía tal intensidade de poder.

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