Capítulo Extra - Ren - Sobre Elementais e Fatasmas - Parte 01

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Renata havia morrido. Pelo menos, foi o que lhe disseram.

A princípio foi divertido. Observar a cara séria do irmão Toni e a ironia nos lábios enviesados de Irene ao explicar como ela tinha sido morta. Parecia uma brincadeira.

Ren não tinha nenhuma lembrança. Em um momento estava lutando, no outro estava no navio do irmão, Newcomen. Ela começou a se irritar depois de vários eventos narrados e esmiuçados em detalhes, dos quais não fazia a mais remota ideia. Se tinha morrido, como diabos voltara? Quem morria não virava um fantasma? O pensamento lhe deu calafrios.

Além disso, quem era Elias afinal? Toni havia lutado ao lado de Irene e do Lenmenthe Henrique para impedir que o tal Omag fizesse um pedido ao gênio? Mas na verdade, ele não queria o gênio, queria é que Toni terminasse com sua vida? E como assim, Adri era um Coração de Magia de mamãe?!

Eram tantas perguntas e tão pouca paciência. Quando a epopéia finalmente chegou ao fim, Ren estava frenética para retornar depressa à região de Amol, onde ficava seu lar, Alumar. Adri estaria bem? E a mãe deles?

Toni lhe garantiu que ambas estavam bem, pois isso fazia parte de seu desejo. Além do mais, não poderiam seguir de volta ao norte naquele momento, pois prometera a Irene que fariam uma parada em Rio Contrário, lar da Dragoa das Águas. Depois disso, seguiriam para Kailotron.

— Vocês estão bem amiguinhos agora, não é mesmo, Perna? — Ren soltou o apelido pelo qual Irene agora o chamava, não sem uma dose de veneno.

— Está com ciuminho? De mim ou dela?

Toni deixou escapar um grito misturado com uma risada quando Ren o acertou no braço com um soco não muito delicado.

Ren, no entanto, havia se recusado a seguir com os demais. O irmão havia insistido em acompanhá-la, mas ela negara terminantemente. Agora encontrava-se sozinha na Floresta Flamejante.

Sim, o mesmo lugar onde um elemental descontrolado de fogo - um flamine - quase a incinerara, juntamente com Toni e Irene. O mesmo local onde lutaram contra a Dragoa das Águas. O mesmo lugar onde havia morrido.

Uma onda gélida lhe percorreu as costas, da base da espinha até o topo do pescoço. Não era a morbidez de seu próprio falecimento que a incomodava. Longe disso. Morte para ela era um conceito abstrato. Não sentira nada enquanto estava morta. Porém, fantasmas eram outra história. Sempre havia fantasmas em florestas. A mais simples menção a almas penadas lhe arrepiavam os cabelos da nuca. Por sorte, não estava completamente sozinha, pois sua inseparável boneca de metal, Puppet, flutuava serena a alguns centímetros de seu ombro. De alguma maneira trazida de volta pelo desejo de Toni, ela jazia sem bateria na cama do quarto de Ren em Newcomen.

"Não sei por que, mas eu sabia que a Puppet era essencial. Sério, não me pergunta por quê." Seu irmão havia dito.

Isso não importava naquele momento. Estava feliz de ter ao menos Puppet por perto.

— RENATA MARO. O QUE EXATAMENTE ESTAMOS FAZENDO AQUI?

— Cacete, Puppet! Quer me matar do coração?! Não pode falar mais baixo?

— ...

— Ai, tá bom... — Ren suspirou — Preciso recuperar meu artefato elemental... sabe... quero rever a Flâmula.

Seu pequeno globo coruscante, símbolo do contrato com a flamine, havia sido perfurado e destruído por Irene. Tirando, é claro, o fato de que Ren havia morrido.

— PACTOS COM ELEMENTAIS SÃO QUEBRADOS ASSIM QUE O PARCEIRO HUMANO É MORTO. O ELEMENTAL FICA DISPONÍVEL PARA FAZER ACORDOS COM OUTROS SERES. NÃO HÁ REGISTRO PRECEDENTE DE UM ACORDO ENCERRADO POR MORTE E DEPOIS RETOMADO PORQUE O PARCEIRO ESTAVA VIVO E NÃO MORTO.

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