04 - Segredos e ironia

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- Elias, acha que podemos confiar na Dragoa das Águas?

- Você é o leitor de mentes aqui, Henrique. Por que não me diz você?

Num restaurante simples, mas agradável, dois homens conversavam. Pela aparente tranquilidade da conversa, poderiam tomá-los como um jovem pai e seu filho, não fossem eles tão diferentes um do outro. Um tinha aparência austera, beirando os 35 anos, a pele queimada pelo sol e cabelos grisalhos que batiam na base do pescoço. O outro era um jovem de tez muito escura, cabelos raspados e olhos azuis. Ambos se encontravam em Kailotron, a capital de Novea. Era uma enorme cidade-estado, com a tecnologia em todos os cantos, na forma de carros a vapor, energia elétrica e muros eletrificados. Ao mesmo tempo, era uma importante cidade mercantil, que negociava principalmente tecnologia e remédios. As pessoas do lugar costumavam dar boas-vindas a qualquer forasteiro, uma vez que não havia guerra em Novea, e estrangeiros eram sempre uma oportunidade de negócios. Porém eram um pouco avessos aos magos. Eles tendiam a fabricar ou utilizar magia para tudo que necessitassem, e recusar qualquer negócio em Kailotron era visto com contrariedade. Havia lojas de diversos ramos de atividade, tornando a cidade muito próspera.

A dupla terminava o segundo prato da janta. O clima era ameno e uma suave brisa soprava na varanda onde estavam, sacudindo a toalha da mesa. Henrique, o garoto de pele negra, observava o homem grisalho com uma expressão fatigada por ter que pronunciar o óbvio.

- Senhor, o senhor sabe que a Dragoa não permite que eu adentre seus pensamentos.

- Ela é precavida, não é mesmo? Mas respondendo sua pergunta, tenho certeza de que podemos confiar nela, é uma amiga antiga.

- Pode ser, mas há quanto tempo não se viam?

- Há alguns séculos, meu caro. Mas eu não me preocuparia com isso. A Dragoa das Águas gosta de qualquer coisa que a tire da rotina, e, no final das contas, eu não pedi nada de mais.

- Hum. Observar aqueles dois irmãos.

- Exato. Foi só dizer que eles podem ser filhos de um Omag. Capturou a atenção dela imediatamente. - Estalou os dedos para demonstrar a rapidez.

- Porque vocês não podem ter filhos naturais.

- Exatamente. Um Omag é imortal, mas ao mesmo tempo, infértil. Parece ser a limitação que a magia impõe para o equilíbrio de energia no mundo. Ninguém sabe por que acontece, mas assim é.

- Então como esses dois nasceram, Elias? Não são seres fabricados, de magia, como os filhos da Tecedeira?

- Não, são seres humanos normais. Têm aptidões mágicas incomuns, mas só. Como isso aconteceu é uma coisa que eu também quero descobrir, Henrique... Também há a outra irmã deles, Adriana, que igualmente me interessa.

- Não vejo no que esses humanos podem ter algum valor...

- Henrique, você obedece às minhas ordens, não está aqui para pensar. Você não possui todos os detalhes desta operação, não tente chegar sozinho a conclusões.

- Pra você abandonar a Guilda, mestre, coisa boa não deve ser.

Encarando Elias por cima da borda de uma xícara de chá, os olhos afiados como navalha e voz cheia de desprezo, Henrique provocava o homem mais velho, o qual seguia por obrigação.

- Não se preocupe, Henrique. Você gostará do meu objetivo, porque depois que eu alcançá-lo, você se livrará do dever de servir a mim. Só não vou revelá-lo agora por uma questão de segurança. Mas diga-me, não se sente motivado com isso?

O jovem continuava a observá-lo com um olhar desconfiado. Poderia estar dizendo aquilo só para que ele cooperasse de boa vontade. Escravo. Sim, era isso o que Henrique era. Com suas capacidades psíquicas, tornava-se uma excelente ferramenta para qualquer pessoa que quisesse obter informações de maneira escusa. Suas habilidades de criar ilusões e controle mental também eram extremamente úteis.

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