- E Senhora Mondavarius, imagino. - Acrescentou uma voz masculina, particularmente forte e grogue, sobre as demais. Resisti a curiosidade de ver o portador da voz quando lembrei do meu estado, jogada no ombro do 'Senhor Mondavarius' como um saco de batatas.
- Edmon.- Raymond ralhou, quando usei uma de minhas mãos para beliscar suas costas, se ele queria me manter naquela posição vergonhosa para sempre, eu faria que fosse o mais desconfortável possível. - Que surpresa, ainda não morreu. - Falou, e como resposta a minha provocação anterior, ele me sacolejou voltando a andar com passos largos.
- Não por faltas de tentativa, primo. - A voz respondeu, com uma risadinha baixa.
- Primo? - Murmurei bobamente, pois nunca havia me ocorrido que o Lobo pudesse ter parentes.
- Pela parte fraternal. - Respondeu para minha supressa, fui capaz de ver suas pernas e sapatos, quando atingimos a base de uma larga escadaria de degraus brancos com corrimões escuros.
- Edmon. - Raymond chamou. - Espero que não esteja tendo dificuldades com os preparativos.
- De forma alguma, como encarregado dessa cassa há vejamos...quatro anos... posso garantir que as diligencias a respeito do...
- É o suficiente. - Interrompeu, com uma ponta autoritária em sua voz. - Estarei em meus aposentos e não pretendo ser incomodado.
Ele terminou de subir o lance de escadas e eu pude finalmente ter um vislumbre do saguão de entrada, as vozes anteriores pertenciam a serviçais, eles tinha formado duas fileiras ao lado da porta de entrada, vestiam todos as mesmas cores de uniforme, tons de marrom e um laranja pardo. Ainda na base da escadaria, Edmon, seus olhos eram escuros, assim como o cabelo curto e volumoso, ostentava uma expressão despreocupada em seus traços finos e jovens. Perdi sua visão assim que viramos em um corredor, que para a minha decepção tinha paredes vermelhas e muitas portas, a porta do fim do corredor foi a escolhida.
Para minha satisfação fui finalmente posta no chão ou melhor jogada em uma cama dossel extremamente macia que fez minhas costas afundarem brevemente. Imediatamente me sentei, levando uma das mãos até minha testa quando uma súbita tontura tomou conta de meu corpo.
- Muito simpático de sua parte finalmente me soltar. - Falei, deixando minha voz transparecer toda a ironia que eu tinha ao falar.
- As apresentações podem ser feitas em uma hora mais apropriada. - Disse, sentando-se numa cadeira acolchoada para retirar suas botas.
- Então, essa é a sua casa? - Perguntei, olhando com interesse o quarto, era imenso, podia ter muito bem o tamanho da minha casa em Sweney Pines, além do quarto em si, haviam duas outras portas em seu interior, separadas por um aparador, imaginei que fossem um quarto de banho e pela evidente ausência de um armário, um quarto de vestir.
- Sim. - Respondeu. - Está livre para andar pela propriedade, mas de forma alguma deve ir até a cidade desacompanhada.
- Por que? - Perguntei de imediato, imaginando que a resposta estivesse nos estandartes e soldados nas ruas ou mais provavelmente em sua alegação de que possuía uma posição conturbada na cidade. Lembrei-me da sensação incomoda que tive quando cruzamos os portões da muralha. - Tem haver com o Mestre da Cidade, não é? Drivand? - Perguntei, ele apenas sustentou meu olhar com curiosidade. - O seu alvo? - Insisti.
- Sim e não. - Respondeu, explicando-me quando a confusão ficou obvia em meu rosto. - Lembra-se do Lican infiltrado em meu clã que a atacou? - Fiz que sim com a cabeça, não havia como esquecê-lo, 'De uma forma ou de outra só preciso levar seu coração' , ironicamente a única pessoa a ficar sem coração foi ele. - O Mestre Lican que o enviou para tomar seu coração foi o Mestre desta cidade. - Falou.
- Quer dizer o mesmo Mestre que você falou que não iria parar de me perseguir mesmo que eu saísse da sua proteção? - Perguntei incrédula, ele confirmou. - E você, nos trouxe exatamente para os domínios dele?
- Vence-lo vai nos colocar um passo mais perto do nosso alvo e ele terá que ser cauteloso se quiser nos atacar aqui. - Falou de forma convincente.
- Imagino que ele tenha algum motivo em especial para querer matá-lo. - Comentei.
- Ele não quer me matar. - Afirmou. - E tão pouco conseguiria.
- Oh, é verdade. Ele quer o meu coração. - Falei, indagando em seguida. - Por que ele quer o MEU coração?
- Você é Dominante, a quem acredite que consumir o coração de outro Dominante amplifique sua magia. - Confessou, algo em seus olhos me fez pensar que isso não era tudo.
- Porque me chamaram de bruxa então? Se sou apenas uma Dominante - Comecei, orando silenciosamente aos deuses que isso fosse tudo. - Porque os Licans do seu clã me chamaram de bruxa? Não era de se esperar o que fiz? Falou na ocasião que retirei a Dominância de Barno, não é isso que um Dominante faz? - Perguntei, torcendo meus dedos em expectativa.
Não. A resposta estava clara entre nós. Sabe o que somos. Sempre soube. A voz da caixinha preencheu minha mente.
- Dominância é impor seu poder. - Começou, falando lentamente enquanto buscava as palavras. - Suprimir os mais fracos, é por isso que temos Mestres, nossa estrutura de comando é definida pelo poder de reprimir os outros. Como qualquer outra estrutura, a diferença é que fazemos a vista de todos.
- Mas não foi isso que fiz. - Constatei. - Eu retirei a Dominância, não suprimi. Disse que humanos com Dominância são raros. - Murmurei.
- Não é tolamente inexistente que algumas Casas se relacionem com humanos e produza descendentes com habilidades de sua Casa. Assim podem existir ainda que muito raramente humanos com Dominância. - Informou.
- Quer dizer que eu tive um antepassado de outra Casa? - Perguntei.
- Possivelmente. - Disse.
E não era um Lican, apostei nisso. Se ao menos eu tivesse a enciclopédia...
Ele se levantou repentinamente, andando até mim. Eu continuava sentada despretensiosamente na cama.
Na cama, minha mente avisou. Na cama dele.
Instantaneamente lembrei-me das palavras dirigidas a Kiros, 'Sou um selvagem, principalmente quando tenho donzelas indefesas em meus lençóis...a despirei em minha cama para fazer coisas que deixariam até um homem como você envergonhando.'
Ele não falava a sério, convenci-me e mesmo que tivesse, fora apenas para me seduzir. Mesmo assim senti minha boca ficar seca e percebi que estranhamente segurava minha respiração, com alguma antecipação que fez minha mente gritar: Controle-se Aysha. Devo ter deixado algo transparecer em meu rosto pois ele parou, seus pés descalços quase tocando a ponta das minhas bocas.
- Pensou em algo interessante, senhorita Nowak? - Perguntou, dando inicio a um sorriso muito convencido, o sorriso de quem sabia exatamente o que eu havia pensado. - Permita-me. - Falou, abaixando-se para puxar uma de minhas botas. Quando a primeira bota caiu em um som abafado pelo carpete, ele repetiu o processo com a outra.
- Acho melhor... - Comecei, odiando-me pela insegurança que transmiti. - É melhor que eu vá até os meus aposentos. - Falei, saltando da cama.
- Esses são os seus aposentos. - Ele falou, colocando-se em pé.
- Pensei que fossem os seus.
- E são. Deixe-me que colocar em palavras simples: esses são os nossos aposentos. - Disse, colocando ênfase nas palavras.
- Vi portas o suficiente para saber que devem ter mais quartos vagos na casa. - Falei. De nenhuma forma eu iria dividir o quarto com ele. Céus, isso era demais.
- E há, pode ficar com um deles se quiser, mas insisto que durma aqui. - Disse com uma falsa condescendência. Quando abri a boca para protestar ele continuou. - Posso mandar com que removam as camas de todos os outros quartos, as mesas e as cadeiras também e que cubram qualquer superfície plana com pó de mico.
- Não irei dormir com você. - Afirmei, cruzando meus braços.
Ele arqueou uma das sobrancelhas.
- Lhe garanto, doce Aysha, que posso encontrar coisas mais divertidas para serem feitas na cama além de dormir. - Ele estava olhando fixamente para mim quando falou, seus olhos passearam pelo meu corpo. E eu me peguei mordendo o interior da minha bochecha enquanto sustentava seu olhar, não iria da lhe o prazer de fraquejar. Minhas pernas discordaram.
- Eu...eu...Temos um acordo! - Falei, com uma voz tão estridente que me pareceu estranha aos ouvidos.
- De fato. Mas que eu me lembre não estou infligindo nenhum dos seus três pontos. - Falou, andando decididamente até mim. Covardemente, eu fugi, para trás de uma das cadeiras acolchoadas.
- Não é verdade, está jogando comigo. - Murmurei. Ele havia me seduzido, usado do meu desejo para me fazer concordar com seu plano.
- Eu queria estar. - Admitiu, elevando os ombros. - Mas não consigo tira-la da cabeça e isso é muito, muito ruim. Meus sentimentos são mais que claros, Senhorita Nowak. - Disse, com tamanha confiança que fez meu coração tamborilar e um sorriso assustado e nervoso se formar em meus lábios. - Você é quem foge dos seus. Pelos deuses, mulher, não vou ataca-la. - Falou, quando eu corri da cadeira que ele contornou até o aparador que ficava entre as portas.
- E como vou saber se isso é verdade? - Falei, referindo-me a primeira parte, afinal não era dele que eu fugia, mas de mim. Da parte que podia se entregar sem arrependimentos, porque era isso que queria. Da parte que não ligava se ele podia ser um monstro. Da parte que renegaria a moral e a lógica apenas pelo desejo.- Como vou saber que não está fingindo apenas para me usar? Que isso não é apenas outra estratégia sua? Não posso lhe dar o meu coração, Raymond, há coisas de mais nele para que você o quebre. - Afirmei, sorvendo o ar com os lábios entreabertos.
- Não estou pedindo para dá-lo, Senhorita Nowak. - Falou em um tom baixo e intimo, com mais significado do que eu poderia compreender. - Estou pedindo que me dê a chance de conquista-lo.
Antes que eu respondesse ele cobriu o restante da distância, pegando de surpresa minha mão direta, ele manteve seu olhar firme no meu rosto enquanto levava minha mão até seus lábios. Suavemente Raymond depositou um beijo cálido sobre os nós dos meus dedos e eu me peguei criando alguma falsa esperança de que ele era sincero quanto seus sentimentos.
Ele é nosso, a caixinha rugiu.
- Irei tomar isto como uma confirmação. - Proclamou. Quando eu não me afastei, ele usou sua outra mão para segurar minha cintura, juntando nossos corpos até que eu fosse capaz de sentir aquele calor único. - Permita-se Aysha, sentir tudo o que tenho para oferecer. - Sussurrou, tentadoramente.
Bastava um passo, um movimento para que eu tivesse seus lábios sobre os meus. A decisão, para minha infelicidade, era toda minha. Não haveria desculpas.
E eu sabia, por todos os deuses que não deveria, que tinha de me ater as histórias sobre demônios que usavam rostos bonitos para enganar as boas garotas. Ele seria a minha ruina, quebraria o que tinha restado do meu coração, eu sabia que sim. Como sabia que nunca deveria ter encarado seus olhos de lobo na floresta.
Ele era o Lobo, por anos o algoz de Sweney Pines, a razão pela qual a maioria das coisas ruins tinha acontecido comigo. E por mais que eu negasse e lutasse contra, o único que era capaz de acender algo em meu imperfeito e fragmentado coração. Com essa certeza tão confusa tomei minha decisão, pensando na garota malvada que era por esquecer de todo mau que ele tinha causado e de todo mau que provavelmente causaria. Para meu beneficio, eu nunca havia dito que era boa de qualquer forma.
- Sim. - Sussurrei, dando o ultimo passo decisivo para minha perdição.