4 - Tinha gente que perdia a linha

Começar do início

- Está mesmo? - Lídia olhou diretamente para Maria, que apenas anuiu com a cabeça - Então, ok. Corram ali no Pablo que ele tá empolgado falando sobre malas.

Pablo deu algumas dicas de onde colocar o quê, mostrou a escada móvel para que eles alcançassem os lugares mais altos e chamou meia dúzia de vendedores do outro setor para trabalharem na arrumação também. Bom, não havia mais nada para Lídia fazer ali, então ela deu meia volta e rumou para a parte dos calçados.

- Lídia, você viu isso aqui? - Dois colegas de trabalho a puxaram para um canto. Um deles estava vendo algo no celular que queriam mostrar a ela.

- Que foi, gente?

- O que você acha disso?

Olha, francamente. Desde que haviam criado um grupo no Whatsapp para os funcionários da loja, Lídia não tinha mais paz. Todo mundo tinha ficado íntimo. A única parte boa eram as fofocas sobre os patrões, mas o preço estava ficando alto demais. Antes de tudo, havia aquela sequência de "bom dia".

Bom dia!

Bom dia!

Bom dia.

Boa tarde.

Boa tarde, grupo.

Boa noite, galera!

Boa noite!

Noite boa!

Havia dias em que o grupo era só isso. Depois vinham as fotos de flor com frases motivacionais, as mensagens gigantes que ninguém lia, os crentes que queriam fazer um culto no grupo, as piadas ruins, as fotos de gente morta e, que nojo, a pornografia. Tinha gente que perdia a linha. Lídia saiu do grupo uma vez jurando que ia passar despercebida, e a enfiaram lá de novo. Ela não tinha escolha. Então o grupo vivia devidamente silenciado, e era fácil fingir que ele não existia, mas, agora, aparentemente, ela estava sendo parada no corredor para ver peitos feios.

- Eu não quero saber de peitos feios! - Ela foi logo dizendo.

- Nem se for da Flávia?

- Quê?

- A garota pirou no Facebook, Lídia.

Lídia não resistiu e foi ver do que se tratava.

RAPAZ.

Era mesmo a Flávia do Pablo.

Não era difícil admirar a namorada do amigo. Ela podia ser totalmente incompatível com Pablo, mas, bonita, a bicha era. Em todas as fotos que Flávia postava nas redes sociais, vinha um monte de gente comentar aquele "Linda!" genérico que diziam para qualquer uma, mas até Lídia queria aplaudir aquela mulher. Ela era linda de verdade (Só não aplaudia porque o ranço não deixava). Flávia merecia muito mais do que os "Linda!" genéricos, e agora todos aqueles homens comentando na foto mais recente de Flávia concordavam com ela.

Gente, como homem não tinha vergonha de dizer aquelas safadezas em público?

Lídia nunca tinha visto Flávia postando uma foto que nem aquela antes. Estava sedução pura com os cabelos lisos presos num coque frouxo em cima de uma cama, apenas de calcinha, uma que Lídia jamais teria coragem de usar, com as mãos cobrindo muito mal os seios - seios lindos - e uma cara de quem adoraria aprontar horrores em cima daquela cama. Lídia se sentia uma avó olhando para aquela foto.

O mais perturbador era a legenda.

Apenas dando o troco no meu namorado. Vocês acham que foi bem dado? rsrsr

Pablo ia MORRER. E que troco, gente?

O amigo odiava se expor. Antes de conhecer a atual namorada, ele nem tinha fotos no Facebook. Agora ele aparecia em fotos por causa dela. Ela fica tirando fotos de mim o tempo todo, ele dissera a Lídia uma vez. Imagina ter que lidar com aquele barraco online. Flávia sabia muito bem que ele ficaria mortificado com aquela foto mostrando tanto e os caras comentando horrores. Ela não parecia se importar muito com a própria exposição.

Será que Pablo tinha aprontado com Flávia? Se tinha, bem feito. Mas Lídia não conseguia conceber isso. Ele estava muito apaixonado para fazer qualquer coisa com aquela mulher que não fosse atender todos os desejos dela e se apagar no relacionamento. Lídia quase que mergulhou naquele mar de Muito Gostosa e Comia Fácil para comentar O QUE PABLO FEZ?

Ao invés disso, apenas suspirou, olhou mais uma vez para os peitos bonitos - Gente, eram mesmo muito bonitos - e decidiu deixar pra lá. Não tinha o que fazer, já estava no Facebook, todo mundo viu. Aquilo ia atropelar Pablo alguma hora. Lídia apenas voltou ao trabalho tentando se preparar para mais uma inevitável Conversa Sobre Flávia que ela seria obrigada a ter.

***

Tinham ido almoçar juntos num restaurante perto da loja, e Pablo não tinha dado um pio durante o caminho, até que soltou tudo enquanto o que Lídia queria era apenas comer em paz.

- Por que um ser humano razoável faria uma coisa dessas, Lídia?

- Pablo, eu não sei...

- Caramba, eu não fiz nada, não foi culpa minha.

- O que exatamente ela disse que você fez?

- Que eu dei confiança pra uma vadia!

- E você deu?

- Eu nem sei do que ela está falando!

- Nem de quem?

- Não! Você é a única mulher com quem eu tenho conversado.

Imagina o auê que ia ser se Lídia fosse a vadia.

- Não é você. Ela não tem ciúme de você. Ela sabe que você é só, tipo, a Lídia.

Lídia não gostou de como aquilo soou, mas já havia drama demais no recinto para levantar aquela questão agora.

- Você tem que conversar com ela, Pablo.

- Ela não quer conversar! Tá me xingando direto no Whatsapp.

Ele mostrou a última conversa com Flávia no Whatsapp e, de 5 em 5 minutos, a mulher mandava um palavrão novo. Tinha uns ali que Lídia nem conhecia.

- Ai, Pablo... Eu odeio te ver assim, mas... Ela é sua namorada, você tem que resolver isso com ela.

- Eu não sei o que fazer.

TERMINA COM ELA, CARAMBA, ESSA MULHER É UMA DESGRAÇADA.

- Dá um tempo, vocês dois precisam esfriar a cabeça. Liga pra ela mais tarde ou, melhor, aparece na casa dela para descobrir o que houve. Ou ela vai cortar sua cabeça ou vocês terão uma noite maravilhosa de sexo de reconciliação.

- A gente não anda transando, Flávia disse que tá numa vibe cristã, só depois do casamento.

Incrível como o relacionamento deles só melhorava.

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