8 - A gente se ama tanto

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Uma semana depois, Pablo entrou na sala dos arquivos sorrindo com a boca e com todas as pintas espalhadas pelo seu corpo. Ele tinha essa mania de fazer boquinhas felizes embaixo das pintas próximas uma da outra quando estava muito feliz. Lídia já estava tão familiarizada que conhecia todas que eram visíveis. Os dois rostinhos no braço esquerdo, perto do cotovelo; Aquele pequenininho atrás do antebraço; O favorito dela, que era um que ficava bem em cima da mão direita. Também tinha um par de olhos nas costas dele, mas óbvio que não dava para ver agora.

Como sempre, ela estava agachada no chão, com as costas num dos arquivos bebericando seu café. O gosto tinha ficado até melhor quando ela pressentiu boas notícias.

- Humn, será que alguém está feliz hoje? - Ela disse, e Pablo deu aquele riso encabulado, um riso quase safado.

- Dá pra ver na minha cara?

- No seu corpo também. Conversou com a Flávia?

Porque só podia ter a ver com a Flávia. Tinha sido uma semana exaustiva com o amigo de Lídia morto por dentro sem saber lidar com a própria namorada. Lídia só queria mandar um TERMINEM LOGO, CARAMBA, e estava até esperançosa de que Pablo finalmente enxergaria a luz, mas, como sempre, só ficava ouvindo e dando respostas evasivas quando ele vinha perguntar por que Flávia era tão Flávia.

- Mais do que isso!

- Transaram - Ela disse.

Ele gargalhou. Aparentemente, o lance da castidade não tinha funcionado muito bem. Algum casal conseguia levar esse voto até o fim?

- Você acha que nós homens somos tão superficiais assim? Eu só posso ter um sorriso na cara de manhã se tiver a ver com sexo?

- Você transou, Pablo.

- Ok, eu transei, mas esse não é o principal motivo da minha felicidade.

- Tem certeza?

- Você é ridícula.

Lídia deu um gole profundo no café, meio rindo, meio querendo esconder a cara dentro do copo. Como ela era mais ela com essas implicâncias!

- Eu e Flávia tivemos uma conversa bem séria ontem. A gente quase terminou.

- O que faltou? - Ela perguntou meio rápido demais.

- Oi?

- Continua.

- A gente entendeu que o nosso relacionamento não estava legal e, se continuasse do mesmo jeito, não ia rolar, sabe? Eu sei que de fora nós parecemos um casal perfeito e tal, mas só quem está dentro sabe como é de verdade.

- Mas gente.

- Deixa eu terminar, é muito importante - Ele estava bem sério.

- Ok.

- Tinha alguma coisa faltando, sabe? A gente não sabia bem o quê.

Lídia nem dormia na mesma cama que eles, mas poderia fazer sozinha uma lista imensa com coisas, começando por bom senso.

- Daí a gente entendeu.

- Ai, Pablo, eu até fico feliz que vocês estejam bem, é só que...

- Vamos ter um bebê.

Lídia quase derrubou o copo de café no chão.

- Puta merda! COMO ASSIM?

- Um bebê! Você sabe, gorduchinho, maõzinhas pequenas, cheirinho de talco...

- Eu sei o que é um bebê, Pablo. Mas, tipo, não era Flávia que não queria um bebê de jeito nenhum?

- Era! Mas ela mudou, viu? Vai dar tudo certo agora. Precisamos mesmo de planos futuros, compromisso, essas coisas. Agora é sério.

Lídia estava desesperada.

- Pablo, o que mantém um relacionamento decente é amor e diálogo. Não um bebê.

- Só quem nunca teve um bebê diz isso. E a gente se ama muito, Lídia.

- E as brigas todas? - Ela tinha que perguntar.

- Não vamos perder a cabeça tendo um filho pra cuidar.

O café estava com um gosto péssimo, Lídia nem quis mais beber.

- E o lance cristão? Vocês não têm que esperar até o casamento ou algo assim?

- A gente vai casar antes, claro. O mais rápido possível. Não somos tão inconsequentes assim.

Botar uma criança no mundo para salvar uma relação escangalhada, beleza, mas não terem uma aliança no dedo JAMAIS.

- Ai, Pablo...

- Você vai ser minha madrinha de casamento. E pode ser madrinha do bebê também!

Ela nem conseguia responder de tão em choque que estava.

- Agora vou ali mandar uma declaração de amor pra Flávia. É nosso ritual de todo dia agora. Hoje é o primeiro dia, na verdade, mas nada de bebê se eu não mandar.

Lídia observou Pablo sair da sala enquanto pensava, que ótimo, agora Flávia usava o bebê como refém. Não quer sair comigo hoje? Não vai ter mais bebê! Como assim você não quer excluir todas as suas amigas das redes sociais? Já era o nosso bebê! Ia ser um inferno. O único consolo é que talvez Flávia estivesse apenas usando essa história de ter um filho para manter Pablo no cabresto.

Era como ver o amigo caminhando para uma armadilha. Ela tinha que fazer alguma coisa. Ainda sentada no chão, Lídia dobrou as pernas e encostou a cabeça nos joelhos.

Tinha mesmo?

Era verdade que Lídia ainda não tinha entrado de cabeça num relacionamento sério com ninguém. Tinha saído com uns caras, mas tudo durava menos de um mês. Era legal no começo, divertido, excitante, era bom rolar uma pegação de vez em quando, porém, eles ficavam mandões, pegajosos e ciumentos. Ela estava bem agora, na dela. Mas não tinha como dizer que já tinha vivido um grande amor. Nem um amorzinho modesto, convenhamos. Será que era mesmo assim como Flávia e Pablo?

Meu Deus, ela preferia morrer sozinha.

Em briga de marido e mulher não se metia a colher, mas o relacionamento deles era onde Lídia queria enfiar uma colher gigante. Pablo estava tão animado com a história do filho! Não queria discutir com ele por causa disso. E ela tinha esse direito? Apesar de terem uma amizade sólida, ela sabia que perdia cada dia mais espaço para Flávia. Ia chegar o dia em que Lídia seria uma mera expectadora do circo que os dois armavam.

Ah, vá, Pablo já era um adulto também. Era a vida dele, a escolha dele. Se Pablo achava que Flávia era a pessoa certa para ele, com a qual ele gostaria de ter um bebê, bom, só restava a Lídia apoiar. Era isso que os amigos faziam, né? Apoio. Amigo de verdade dá apoio, como ele mesmo já tinha apoiado Lídia diversas vezes.

Levantou do chão com as pernas meio bambas e ligou para um número enquanto jogava o copo de café na lixeira.

- Alô, mãe? O que exatamente a madrinha de um bebê faz?

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