1 - Sinais

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A boca da moça da loja mexia, e Maria tinha certeza que deveria estar prestando atenção em toda aquela conversa. Benefícios, contratação, jovens no mercado de trabalho e blábláblá, mas a menina só conseguia pensar que os outros três adolescentes naquela sala eram melhores do que ela, que nem tinha que estar ali.

O coração dela batia forte, e era ridículo que, enquanto as amigas dela estavam focando os batimentos cardíacos nos garotos mais bonitinhos da igreja, ela estava ali apaixonada aos quinze anos por uma vaga de Jovem Aprendiz numa loja de sapatos feios.

Era mesmo tudo culpa dela. Bem feito.

A menina à sua esquerda era gloriosa. O nome era Tiele e tinha as maçãs do rosto mais perfeitas da sala. O corpo esbelto, a pele negra, o cabelo crespo preso com muita força de vontade num coque no alto da cabeça... Tudo cooperava para fazer parte de uma pessoa linda. O menino à direita de Maria era alto toda vida e usava uns óculos que, honestamente, só Jesus na causa, mas deveria ser ridiculamente inteligente. Nenhum sentido em usar óculos e ser burro. Porém, era a última menina que deixava Maria chocada. Era a cara da Quimera London, apesar do nome ser Glauce. Talvez uma irmã gêmea há muito perdida? Maria se deu conta de que era a única pessoa branca da sala. Até a moça da loja tinha um tom claro de marrom na pele, apesar do cabelo ser menos crespo e mais ondulado.

- Como eu disse, vocês estão disputando duas vagas, então essas duas semanas serão um período de experiência - A moça da loja continuou - Estão sendo avaliados desde agora. As notas de vocês na escola já são bem satisfatórias para a gente, então o que vai realmente fazer a diferença é a desenvoltura de vocês vendendo os sapatos da nossa loja. Ok?

Maria não tinha certeza se dominava essa coisa de desenvoltura, mas esse seria o assunto de suas orações para Jesus nesta noite.

***

Era Jesus Cristo no Céu e Quimera London na Terra para Maria. Talvez fosse um pecado gostar tanto de um ser humano assim, mas Maria não conseguia se controlar. Assistia todos os vídeos religiosamente, lia as entrevistas, fazia recortes em revistas e comprava todos os produtos lançados pela youtuber, mesmo aqueles que eram inúteis para ela. Até hoje não sabia o que fazer com a coleira personalizada com o logotipo do canal, já que nem tinha bicho de estimação.

Mas um dia poderia ter! Talvez, ela devesse arrumar um cachorrinho só para usar a coleira. Será que vendiam animais na Quimera Store? Fazia parte de ser uma fã fiel.

De qualquer forma, esse apoio à carreira de sua youtuber favorita estava ficando um pouco custoso, dificultando as coisas para Maria. A mãe dela não conseguia entender a necessidade da fatura de 3 dígitos no cartão de crédito e só sabia reclamar, ameaçar castigos e dizer que não arrumava dinheiro no lixo. Maria tinha quinze anos e precisava de um emprego para ontem. Tinha conversado com Jesus sobre isso em oração, e ele havia respondido o de sempre: nada. O que era meio frustrante e a deixava meio balançada na hora de decidir de quem gostava mais. Quimera London sempre respondia perguntas que os fãs faziam no Twitter ou no Instagram. Jesus deveria usar as redes sociais.

Ok, agora ela com certeza estava pecando.

O lance com Jesus, na verdade, não era um problema dele. Ela que era, ao que tudo indicava, espiritualmente surda. Todo mundo na igreja ouvia Deus falando. Cada pessoa que pegava o microfone para pregar começava com um "Deus me disse", "Deus mandou eu dizer a vocês" , "Deus chamou minha atenção para este fato" ou "Deus palestrou comigo". Jesus falava bastante até, pelo visto. Ele palestrava com as pessoas, o que deveria levar ponha aí uma hora e meia pelo menos. Um monte de louvor falava sobre ouvir a voz de Deus, então ele tinha uma, mas Maria ainda não se sentia espiritual o suficiente para ouvir. Talvez devesse orar e jejuar mais. Ou passar menos tempo no Youtube (jamais).

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