2 - Uma em cada três matava

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- Eles são ótimos, não são?

- Olha, Pablo, não é exatamente a palavra que eu usaria.

- Preciosos? Incríveis? Legais?

- Eu diria potencialmente desgastantes.

- Quem comeu seu coração, Malévola?

Lídia deu uma risada gostosa, do tipo que só Pablo arrancava dela.

- Não que eu não goste de adolescentes, eu até gosto de alguns, mas...

- Cite um.

Ela quase respondeu Quimera London, mas não sabia se contava como uma adolescente de verdade ou uma alucinação coletiva da internet.

- Deixa eu falar – Ela riu – É que eles têm toda essa energia pra gastar, chegam aqui cheio de ideias e tal... Ai, sei lá, cansa. Dá vontade de dizer: Gente, menos, o mundo vai amassar vocês todinhos.

- Nossa, Lídia, acertaram em cheio quando escolheram você para inspirar os jovens aprendizes.

- Não foi culpa minha! - Ela gargalhou. Pablo era a única pessoa de quem ela aceitava escutar que era uma bruxa sem se sentir ofendida. Ainda ficava surpresa em como a amizade deles tinha dado tão certo, sendo ela a mau-amada que era e ele um labrador humano, sempre ficando feliz com qualquer coisa. Até com adolescentes perdidos no trabalho pedindo orientação toda hora.

Não tinha sido mesmo culpa dela. Era uma vaga que ninguém na loja queria, então tiraram no zerinho ou um e ela foi a azarada. Pablo era um dos vendedores mais antigos da loja, e a chefia queria que os menos experientes aprendessem coisas novas. Ele, que era o único capaz de se divertir com a tarefa, nem foi cogitado. O pepino tinha ido parar nas mãos de Lídia.

- Mas eu vou fazer um bom trabalho, pode deixar. Na frente deles, eu sou um amorzinho. Vou cuidar dos seus bebês.

Estavam no setor administrativo, ele ajeitando uns papéis num arquivo e ela tentando usar o computador menos velho para cadastrar os aprendizes no sistema. Os novos donos estavam expandindo o negócio de venda de sapatos e deveriam estar com os bolsos cheios de grana, mas, aparentemente, não o suficiente para desobrigar os vendedores a terem que lidar com aquelas máquinas arcaicas.

- Os únicos bebês que terei, pelo visto - Pablo disse, deixando Lídia confusa.

- Oi?

- Flávia não quer bebês.

Ai, gente. Lídia estava tão aborrecida com o lance dos aprendizes que caíra feito uma pata numa Conversa Sobre Flávia. Todos na loja sabiam que deveriam evitar, uma em cada três matava.

- Nossa, o computador está super travando hoje, né? - Ela tentou desviar o rumo da conversa.

- Que tipo de pessoa não gosta de bebês?

- Eu tô tentando concluir a operação e nada acontece!

- Ok, muita gente não quer bebês, mas ela nem considerou o meu desejo.

Lídia não ia conseguir escapar dessa vez, estava encurralada. Tinha se esquivado do assunto "Flávia acha que fazendas são sujas e fedidas", sendo que Pablo nascera e crescera em uma, e também do "Flávia diz que querer conversar todo dia é um sinal de insegurança da minha parte", mesmo Pablo sendo a pessoa que mais confiava nos outros e na humanidade em geral. Mas agora ela não queria bebês, e Lídia queria era dar na cara dela para deixar de ser tão horrível com Pablo. Todo mundo na loja sabia que Flávia não era muito compatível com Pablo, menos ele. Quatro meses de namoro, algumas idas e vindas, brigas feias e reconciliações esquisitas, e ele ainda via nela o amor da vida dele. O chato era que ele vivia cabisbaixo choramingando pelos cantos por conta de algo que a maldita Flávia tinha dito sem tato nenhum e nem Lídia, que era a melhor amiga dele, tinha coragem de dizer que aquele era um relacionamento de bosta. Na verdade, ela tinha dito nas primeiras desavenças deles, mas daí eles voltaram e Lídia é quem ficou mal na história por criticar a namorada do amigo.

- Desisto de usar essa joça. Depois cadastro todo mundo.

- O que você pensa sobre bebês, afinal? - Ele perguntou diretamente.

- Evito sempre que possível.

Ele a fulminou com os olhos.

- Que foi? Estou sendo sincera.

- Então você concorda com a Flávia?

O problema da Flávia, Lídia ponderava, não era nem as opiniões dela. Ok, ela bem que podia maneirar um pouco na intensidade ao descrever seus desgostos, mas todo mundo era livre para gostar e desgostar do que quisesse. A questão é que ela cagava para tudo que Pablo valorizava no mundo, exceto o trabalho voluntário num abrigo para moradores de rua do qual ambos participavam. Tinham se conhecido lá, inclusive.

- Só acho que vocês deveriam conversar sobre isso, não tem certo ou errado.

- Você tem razão, bebês dão mesmo muito trabalho. Ia ser difícil conciliar com as nossas carreiras.

Não tinha sido o que Lídia havia dito, mas ela estava aceitando qualquer conclusão para encerrar aquela conversa desconfortável. Só à noite, quando ela colocasse a cabeça no travesseiro, que iria se sentir super culpada por deixar Flávia, a força maligna, eliminar a luz do coração de Pablo. Mas agora iria só calar a boquinha para evitar a fadiga.

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