11 - Ali havia um amigo

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Era a hora da verdade, e Lídia queria muito que o adulto responsável pela situação não fosse ela. Para ser honesta, nem adulta queria ser. Se pudesse, voltaria dez anos no tempo e agora estaria tomando bronca da mãe por não arrumar as roupas de um jeito que não causasse uma avalanche de calcinhas e sutiãs toda vez que alguém precisasse abrir a porta do guarda-roupas. A vida era mais fácil. Quer dizer, ela não podia falar por todos os adultos do mundo, mas a vida de adolescente dela era muito mais simples. Achou que estava dominando esse lance de ter mais de 20 anos e não depender mais dos pais, tinha conseguido uma casa e um emprego sem ajuda e ainda conseguia manter contato com bons amigos, mas estava afogada em drama. Ia mandar para o olho da rua dois adolescentes e Pablo não tinha falado com ela desde o dia anterior quando ela tinha jogado tudo na cara dele.

EU ESTOU FARTA.

Gente.

Ela tinha mesmo berrado isso? Não havia contado do descontrole emocional para mais ninguém, porque qualquer pessoa que a conhecesse diria que ela havia morrido e sido substituída por um alien. Lídia nunca gritava. Ela ficava nervosa, entrava em pânico, se mordia toda por dentro e alimentava úlceras em seu estômago por engolir tanto sapo, mas gritar era fora de cogitação.

Tinha tomado uma chamada dos superiores porque o fuzuê acontecera em seu setor, contudo, essa era a menor das preocupações de Lídia. A maior estava vindo em sua direção com uma cara abatida e um copo da Starbucks na mão.

Lídia estava prestes a entrar na sala de reunião onde havia mandado os aprendizes esperarem para o grande anúncio, mas se deteve para encarar Pablo.

- Trouxe para você - Ele estendeu o café a ela.

- Pra mim? Obrigada... Acho que estou mesmo precisando.

- É hoje, né?

- É agora.

- Boa sorte. Você consegue.

Ela ia só entrar e fazer o que tinha de ser feito, mas ali havia um amigo. Prioridades.

- Pablo, olha, ontem eu não quis ser tão...

- A gente terminou.

- Graças a Deus! Jura?

Se tocou que não era educado soar tão feliz assim.

- Quer dizer... Nossa.

- Você está doida para comemorar, Lídia.

- Imagina! Que isso. Longe de mim - Ela era uma péssima atriz.

- Você estava certa.

- Eu realmente não queria ter...

- Não, não precisa se desculpar. Ontem, quando a gente saiu daqui da loja, eu acabei vendo que, lá no fundo, a gente não tem muito em comum.

Lá no fundo? Ok.

- Eu e Flávia nos entendemos em alguns assuntos, mas...

- Cite três - Lídia disse.

- Oi?

- Desculpa, eu estou muito nervosa. Achei que você nunca mais fosse falar comigo. A Flávia de algum jeito podia, sei lá, não querer que você olhasse mais na minha cara. Eu fui grossa ontem.

- Foi mesmo. Mas o otário fui eu. Eu não sei como não enxerguei antes, era uma cilada. Todo dia um aborrecimento diferente! Agora eu me sinto tão livre, sabe?

- A sua cara está péssima.

E estava mesmo. O cabelo estava uma maçaroca, os olhos estavam fundos, a cara bem mal diagramada.

Não Sei Lidar com MalasLeia esta história GRATUITAMENTE!