4 - Tinha gente que perdia a linha

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Havia mais malas entre o Céu e a Terra que um ser humano poderia imaginar. Lídia tinha contado mais de vinte e três modelos e o número não parava de subir. O novo setor ainda não estava em ordem como a loja de sapatos, mas dava para ver produtos espalhados por todo canto esperando serem colocados nas prateleiras e vitrines já montadas. Havia malas de tamanhos diversos, alguns modelos em mais de duas cores, algumas se pareciam com sacolas e outras com bolsas de mão. Rodinhas, zíperes, velcros, puxadores e alças apareciam aqui e ali. Lídia estava ali apenas porque queria estar, não tinha necessidade alguma de supervisionar os aprendizes estando eles nas mãos de Pablo. Ela que tinha que ser supervisionada com eles. Era difícil saber quais deles seriam os escolhidos para ficarem com as vagas, embora Lídia entendesse que era muito cedo para pensar nessa decisão.

Tinha o menino alto que era bom em matemática, a menina linda que lembrava demais a melhor amiga de Lídia, a outra que era a cara da youtuber e a loirinha que devia ser crente, de alguma igreja muito conservadora a julgar pelos trajes. Só de olhar já dava calor em Lídia. Nem a mãe de Lídia, que era católica roxa, se vestia tão comportadamente.

Despertou de seu devaneio quando viu o menino - ela tinha que pelo menos gravar os nomes deles - tropeçar num kit de malas que estava bem no meio do caminho.

- Esse kit que você acabou de pisar sem nenhuma consideração, por exemplo, é um dos mais populares.

Pablo podia ficar bem passional falando sobre os produtos da loja. Talvez, as malas é que fossem os tais bebês que Flávia jamais daria a ele.

- Eu tropecei - O menino se desculpou.

- Eu vi o que você fez, Breno.

- Quem que compra um conjunto de malas rosas? - Breno perguntou.

- Não são apenas malas cor-de-rosa - Pablo explicou - Esse é um modelo importado da Itália e inspirado nas cidades de lá.

Ainda eram malas cor-de-rosa e feias, e Lídia voltaria para casa no mesmo pé se chegasse na Itália e tudo tivesse aquela cara.

- Nem parece que estamos falando de uma caixa para carregar coisas - Breno disse, e Lídia meio que sentiu que ele queria apanhar.

- Ah, uma caixa, é? Vai ter que fazer melhor do que isso para conseguir vendê-las.

- Estou doida para aprender a arte de amar malas - disse Tiele, que era quem tinha o nome mais diferente.

- Não é difícil. Esse modelo italiano é mesmo uma belezinha - Pablo pegou uma das malas rosas e a colocou sobre uma bancada - Olha essa alça de mão retrátil, com trava de segurança e botão libertador. Sério, olha esse botão! As rodas desse kit giram 360º, e todas vêm com cadeado com segredo acoplado. Querem ver dentro?

Pablo não esperou ninguém responder e abriu a maior mala do kit rosa, como se ele mesmo estivesse curioso para ver o que tinha dentro.

- Estão vendo?

Breno olhou para Tiele. Ela apenas deu de ombros, estavam diante de uma mala vazia. Lídia não era paga para isso, mas tão bom ver adolescentes lidando com Pablo pela primeira vez!

- O forro, galera, olhem esse forro personalizado! Tem também um bolso com zíper na tampa e essas alças com trava central. São elásticas, estão vendo? É o que vocês precisam saber sobre estas malas - Pablo avisou - Vocês terão ajuda, claro, mas podem começar arrumando as malas nas posições e estudando um pouco sobre elas no fim do dia. Temos apostilas comentando em detalhes cada modelo. Vocês vão se amarrar!

As outras duas meninas finalmente apareceram no setor, e a crente estava pálida, de um jeito que fez Lídia perguntar se estava tudo bem.

- Ah, ela está ótima! - Quimera respondeu.

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