6 - Bolinha de papel amassado

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Lídia entrou com um contrabando na sala dos arquivos: um copo de café. Comidas e bebidas eram terminantemente proibidas ali por conta dos documentos que a sala guardava, mas era o ritual diário da funcionária. Ela comprava seu café com creme numa Starbucks que havia do outro lado da praça perto da loja (E que certamente a levaria à falência. Que cafés caros!), se esgueirava pelos corredores da loja e encontrava a paz no ambiente silencioso entre um arquivo e outro. Podia usar a sala comum, que tinha uns sofás maravilhosos, mas detestava interagir com pessoas logo de manhã. Claro que ela tinha que sair dali em poucos minutos e falar com pessoas, tirar dúvidas de pessoas, ajudar pessoas e deixar pessoas comerem a sanidade mental dela, mas aquele tempinho a sós com seu copo de café com creme garantiam a ela resistência e paz interior.

Ouviu mais do que viu a porta da sala abrindo e fechando e um Pablo com a cara toda amassada entrando, vasculhando os arquivos e sentando no chão ao lado dela sem dizer nem um bom dia. Lídia nem reclamou, ela preferia assim. A amizade deles era outro ritual diário que a deixava pronta para lidar com todo mundo.

- Eu já estava preocupada que ia te perder para uma gripe.

- Cara, aquela merda veio do nada. Parecia uma praga egípcia.

- Amo como vocês homens são resistentes à doenças. Um resfriado e já agem como se estivessem no leito de morte.

- Acho que era dengue. Você não sabe o quanto eu caguei, Lídia.

Ela gargalhou.

- Prefiro continuar sem saber enquanto tomo meu café, ok? Você foi ao médico?

- Claro que eu fui. Mais pelo atestado e tal. Você sabe como eu odeio médico.

Ela sabia mesmo. Teve uma vez que apareceu um cisto no mamilo esquerdo dele e Lídia ficou doida em como ele simplesmente deixava para lá, esperando a coisa sumir. Óbvio que não desapareceu magicamente, só cresceu. Era como se o caroço estivesse se alimentando de Pablo. Ela foi invasiva? Foi. Mas nunca que ia perder um amigo, ainda mais aquele amigo, por conta de uma bobagem dessas. Teve que embebedá-lo um pouquinho, mas arrastou Pablo para o médico como uma mãe faz com uma criança chorona e, no fim das contas, não era nada demais. Era benigno, só uma massa aleatória que nasceu onde não devia. Foi todo um processo para fazer Pablo passar pela cirurgia, ele ficou realmente bravo com ela, mas cedeu.

- Será que Flávia fez um trabalho pra mim?

- Achei que vocês fossem cristãos agora.

Ele mandou aquele olhar debochado para ela, e Lídia quase cuspiu o café.

Ela gostava tanto disso. Sabia que era uma raridade ter essa liberdade para falar o quanto cagou na noite passada, que um caroço suspeito apareceu no seu mamilo e o mundo de outras coisas que eles compartilhavam com intimidade... Mas tinha Flávia. Sem querer ofender as religiões africanas, mas Flávia era o próprio trabalho. Lídia não sabia mais como informar isso ao amigo, o que a deixava ao mesmo tempo agoniada com a situação e irritada por ter que pensar tanto nas palavras a usar numa conversa com Pablo.

No começo, assim que os primeiros desentendimentos começaram a aparecer, Lídia cogitou estar sendo uma amiga ciumenta. Era meio chato mesmo que agora Pablo não tivesse todo o tempo disponível do mundo para ela, mas ela sabia que a vida era assim. Ela mesma vivia cheia de casinhos aqui e ali. Pablo não era muito de pegar geral, fazia mais a linha rapaz sério e ficava solteiro por meses, mas era cheio de amigos e amigas. Era simpático demais, uma máquina de fazer vinte amizades em cada esquina. Lídia já estava acostumada a ter que dividi-lo com várias pessoas, porém, com Flávia, ela sentia que estava perdendo o melhor do amigo para alguém que não merecia.

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