3 - Quero morrer sua amiga

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No dia seguinte, o primeiro dia de trabalho de verdade, a menina estava otimista. Maria tinha lido a Bíblia, orado de madrugada com os joelhos dobrados e depois com a cara no chão (só para garantir), e sustentava agora um jejum de doze horas. Seu eu espiritual estava mais alimentado do que nunca, e ela se sentia pronta para cumprir a missão dela naquela loja: calçar pés. Jesus estava ali com ela, ela podia sentir. Já podia se enxergar oferecendo os melhores sapatos para as pessoas, meio que guiada pelo Espírito Santo para unir os clientes aos calçados certos. A fé dela apontava para o sucesso. Diziam que a fé movia montanhas, imagina quantos pares de sandálias isso não vendia?

Tinha escolhido novamente usar seu casaco rosa velho de guerra para esconder seus braços, pois podia espantar os clientes. Estava um calor danado, mas, ai, Maria não podia arriscar. Tinha gente que era besta assim. Puxou as mangas para baixo mais uma vez, aquilo que já era seu tique particular, mesmo quando não havia ninguém por perto.

- Você veio do mesmo Rio de Janeiro que eu? - Foi abordada na porta da loja.

- Glauce.

- Euzinha. Isso é moda mórmon?

- Eu não sou mórm... - Maria começou a protestar, mas, francamente, não valia a pena - É. Moda mórmon.

- Eu jamais poderia ser mórmon, Deus me livre. Um calor desses.

- Não é mesmo uma coisa para todos.

Glauce era tão parecida com Quimera London que chegava a dar raiva. Tinha trançado a lateral esquerda de seu black power e agora estava tão estilosa quanto a youtuber. Era uma injustiça aquela mala ter uma cara tão simpática, porque Maria queria ficar realmente brava com ela, mas não conseguia. Glauce merecia toda a ira dela por... Deus amado, por tudo. Porém, Maria sabia, não era uma boa ideia arrumar quizumba com uma colega de trabalho, mesmo que colega não fosse a palavra mais adequada. Jesus só arrumou aquele fuzuê no templo, virando as mesas e dando chicotada na galera, porque não tinha que bater ponto e olhar pra cara de todo mundo de novo.

As besteiras que estar perto de Glauce fazia Maria pensar.

Tinha sido um alívio quando Lídia tinha dito para todos retornarem no dia seguinte para de fato começarem a trabalhar. Maria estava quase parindo o menino Jesus achando que seria eliminada por causa da resposta idiota que tinha dado na ficha, mas, aparentemente, aquilo não servia mesmo para nada.

Assim que entraram na loja, Maria decidiu manter o foco no que realmente importava: seu desempenho na loja. Tinha passado a tarde e a noite inteiras do dia anterior listando seus pontos fortes e como poderia agregar valor à loja. Por exemplo, aquelas vitrines eram mal arrumadas. Os sapatos pareciam estar jogados de qualquer jeito, sem nenhuma ordem de preço. Nem agrupados por modelo ou pelo menos por cor estavam. Também não havia destaques, os clientes perdiam muito tempo olhando para tudo e deviam acabar não levando nada. Eram vitrines simplesmente chatas, e ela podia dar um jeito nisso.

Encontraram Tiele já recebendo instruções de Lídia e, oh, que garota esperta! Estava ainda mais bonita do que ontem, apesar de usar o mesmo coque apertado. Chegou mais cedo do que todos para causar uma boa impressão, mesmo Maria sendo bem pontual. Na verdade, era meio desesperado da parte dela. Lídia com certeza ia notar isso e deixar claro que uma pessoa que chega tão antes assim demonstra que vive à toa e não tem muito a oferecer. Maria ficou de lembrar a si mesma de chegar mais cedo amanhã. Não muito mais cedo, só meia hora, porque, tipo, alguém tinha que avisar Tiele da gafe cometida.

- Eu querendo chegar atrasada, e a jagunça já chegando antes - Glauce disse para Maria enquanto se aproximavam das outras duas.

- Chegue atrasada amanhã. E não chame ela disso, credo.

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