5 - Cheia de segredinhos

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Maria pensou em inventar que estava doente para poder faltar o trabalho, mas Jesus não ia gostar dessa mentira, então ela preferiu evitar. Porém não desistiu da ideia da doença e tentou com muito afinco pegar uma gripe braba. Tomou banho quente, foi no quintal à noite sem agasalho, encheu a cara de sorvete, dormiu no chão gelado com o ar-condicionado ligado no máximo e o cabelo molhado. Acordou ótima. Ainda tinha esperança de alguém na casa dela ter pegado um resfriado na rua e talvez ela pudesse, sei lá, entrar na mira do espirro de alguém, mas todo mundo estava ridiculamente saudável durante o café da manhã. Essa era a desvantagem de ter uma família abençoada por Deus.

Foi para a escola pensando em ser atropelada. Assim, de leve. Não por um caminhão ou um ônibus, mas quem sabe por uma bicicleta. Ela agiria como se fosse um atropelamento por caminhão, claro, sempre poderia ter ocorrido uma hemorragia interna ou um traumatismo craniano, então ela teria que ir ao médico checar. Contudo, era muito cagona para se meter na frente de uma bicicleta.

Talvez se ela orasse com fé para ficar doente...

Seria uma coisa sem precedentes na história da humanidade, mas bateu uma certeza em Maria de que Deus enviaria um câncer terminal para ela deixar de ser otária.

Chegou na loja respirando fundo depois de um dia cheio de Geometria, Gramática e Axilas Suadas. Viu a pizza de suor embaixo do braço e ainda bem que trocaria de roupa para pôr o uniforme do trabalho. Ok, ela tinha compartilhado e curtido a foto do seu supervisor fofo, que devia ser mais de dez anos mais velho do que ela e tinha uma namorada (ela investigara com mais calma em casa). Claro que tinha desfeito tudo o mais rápido que pôde e GRAÇAS A DEUS ninguém tinha comentado nada, mas não dava para saber com certeza se alguém tinha visto. A qualquer momento Pablo poderia sair de dentro de uma mala gritando A-HÁ! EU SEI O QUE VOCÊ FEZ. Ela só tinha que ser invisível hoje. Entrou no setor de malas pensando num bom disfarce até que relaxou ao lembrar que, com aquela roupa toda para esconder o vitiligo, já estava disfarçada. Homem nenhum olhava pra ela daquele jeito e, pela primeira vez na vida, Maria achou aquilo um motivo para agradecer a Jesus mais tarde.

Infelizmente, Glauce só tinha olhos para ela.

A dublê da Quimera London estava toda curiosa e, como Maria já sabia, não calava a boquinha nem por um segundo. Maria não se surpreendeu ao ver que Tiele foi novamente a primeira a chegar, mas tomou um susto quando viu Glauce lá também. Glauce praticamente avançou em Maria enquanto esta tentava se esquivar de maneira furtiva para dentro do vestiário.

- Tem certeza que ele não curtiu nenhuma foto sua de volta?

- Por que você está aqui?

- Eu trabalho aqui.

Maria apenas a encarou.

- E queria estar presente quando ele viesse falar com você hoje.

- Por que ele faria isso? - Maria perguntou, desesperada.

- Bom, você disse que quer o corpo dele nu, então ele talvez venha realizar seu desejo!

- Pela amor de Deus, Glauce - Maria colocou a mão na maçaneta da porta do vestiário.

- Vai ver ele já está sem roupa nenhuma te esperando aí dentro!

- Fala baixo! - Maria viu que Tiele vinha vindo. As duas pararam de falar. Tiele as cumprimentou e entrou no vestiário.

- Vamos ver se ela vai gritar - Glauce disse.

- Eu não disse que quero o corpo dele nu!

- Minha filha, você curtiu e compartilhou uma foto do cara de cueca. Nem precisa dizer mais nada, já arrumei peguetes com menos.

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