"A chama mais brilhante projeta
a sombra mais escura"
George R. R. Martin
— Não tenho nada contra você. — Nicolas sentou no chão, já cansado de bater na porta e pedir por ajuda.
Faziam duas horas desde que Leonora havia deixado Nicolas e Margot no depósito de materiais, e os dois, após muita briga, enfim resolveram pensar em uma melhor alternativa para saírem daquele lugar.
— Assim que o jogo acabar, os jogadores entrarão no vestuário, pediremos socorro, e saíremos daqui. — Margot alegou, se recostando na parede.
— Linda...
— Meu nome é Margot. Só Margot. — Afirmou com destreza.
— Tudo bem, Margot. — O homem bufou. — Seguinte, se os meus alunos nos virem aqui, vai ficar complicado para nós dois. Vão pensar coisa errada, sem falar que eu deixei eles em campo falando que iria resolver algo importante.
— E foi transar. — Emitiu um riso debochado. — No depósito de materiais. Que decadência.
— Decadência ou não, aqui estamos nós, e se não quiser parecer decadente junto comigo, ouça meu conselho. — Nicolas gritou. Já estava cansado das insinuações de Margot.
— E o que sugere? — A garota questionou, cruzando os braços de maneira furiosa.
— Amanhã o faxineiro vem tirar o pó de todo local, inclusive, do banheiro. Ele pode nos ajudar. — disse, deslizando suas mãos pelo rosto, e em seguida, pelos cabelos, demonstrando toda impaciência que estava sentindo no momento.
— E por qual motivo o faxineiro nos ajudaria sem falar para ninguém, Nicolas?
— Porque é meu pai.
Margot, por sua vez, soltou um suspiro longo, deixando seu corpo escorregar pela parede cujo estava encostada, até que ficasse sentada no chão. Seu olhar era fixo na pequena janela que havia no depósito de materiais, aonde dava para captar diversas pessoas passando por lá, pela quantidade de vultos e barulhos que saiam daquele pequeno quadrado na parede.
— Vamos ter que passar a noite aqui? — Ela questionou, com esperança de ouvir da boca de Nicolas um "não".
— É a única alternativa sem nos prejudicar.
As mãos de Nicolas estavam apoiadas em sua cabeça, e seus cotovelos apoiados em seus joelhos. Em pensamentos, ele estava se perguntando como uma mulher conseguia ser tão bonita e tão irritante ao mesmo tempo, e como seria uma tarefa extremamente difícil passar a noite no depósito do tamanho de um cubículo com ela. Para um homem, que estava acostumado a ser paparicado, desejado e admirado, ouvir palavras como "decadente" sendo desferidas em sua direção, era humilhante.
Nicolas se perguntava o que fez Margot tirar essas conclusões absurdas sobre ele. Ela era uma aluna caloura na Universidade. Fazia mais ou menos um ano em que havia se mudado para lá, sempre foi muito quieta, e nunca havia trocado uma única palavra com ele, até aquele momento. Na verdade, ele só sabia quem a jovem era pelo fato dela ser amiga de Leonora.
Conforme o tempo passou, o jogo acabou, e os Boulders voltaram para o vestuário. A conversa incessante deles era sobre a vitória recente, e também insultavam Nicolas, o instrutor que os abandonou no meio da partida para resolver assuntos familiares. Margot se sentiu incitada em denúnciar a presença do decadente professor no depósito, mas se conteve, pois sabia que assim iria se prejudicar também. Após um tempo, o time saiu, deixando o banheiro vazio, quieto e escuro. O mesmo aconteceu com a janela cheia de movimento do lado de fora. Aos poucos, o número de pessoas passando por ela diminuíram cada vez mais, até que cessaram totalmente.
Um barulho anunciando pancadas chuva e trovões tomou conta local minúsculo, e logo o frio apareceu, mudando totalmente a condição climática que estava à horas atrás. A jovem, encolhida no canto do depósito, lembrou-se como amava chuva, e sorriu ao lembrar-se de sua mãe dizendo que quando caía água dos céus, era porque os anjos choravam e lavavam a maldade do mundo com suas lágrimas. Quando pequena, ela acreditava convictamente nisso, mas hoje, não mais. Hoje ela estava crescida, e sabia que a maldade do mundo era incurável.
Margot lamentou por ter escolhido como traje daquela noite um shorts, e uma camiseta branca básica de manga curta. Em uma tentativa de se esquentar, abraçou o próprio corpo, enquanto observava Nicolas deitado no chão, olhando para o teto. Ela não sabia se ele estava dormindo de olhos abertos, ou se estava pensando nos seus atos. Mas o fato era que, apesar de não estar agasalhado devidamente, ele não aparentava estar com frio. — Ele não está com frio porque está coberto de músculos e arrogância. — Margot pensou.
— Se quiser deitar-se meu lado, posso te aquecer — O homem pronúnciou gentilmente, o que fez Margot gargalhar.
— Prefiro morrer congelada.
— Pode ficar tanquila, quem já é fria por dentro, não morre congelada. — Nicolas provocou, arrependido pela sugestão que acabara de fazer. Ainda deitado, virou-se em direção à parede tentado adormecer, e ignorar a mulher com quem dividia aquele espaço.
Margot, por sua vez, digitava várias mensagens para Leonora, na esperança que ela tivesse misericórdia e voltasse para abrir a porta, mas nada. Já eram duas horas da madrugada, e a jovem loira não havia respondido uma única mensagem.
Após um tempo, seu celular vibrou, e brevemente ela constatou que era apenas uma mensagem de Mikayla, preocupada com as duas.
"Aonde vocês estão?"
Margot sabia o quanto Mikaylla deveria estar enlouquecida por ter perdido ambas amigas de vista. Provávelmente Leonora ainda não havia voltado para o quarto também.
"Longa história. Depois te conto tudo. Leonora saiu correndo de mim."
"Eu vi ela horas mais tarde depois que vocês sairam, junto com o Mark. Eles terminaram, sabia? Na verdade, ele flagrou ela junto com um cara, foi o maior barraco! Ela estava muito brava, tentei seguir ela, mas ela me enxotou. Estou tentando enviar mensagem, mas não responde. Sei lá o que se passa na cabeça dela."
Leonora não era muito simpática com as pessoas ao seu redor, na verdade, nem Margot sabia como havia conseguido fazer amizade com ela.
"Também não sei. Depois a gente se fala, tá?"
Margot pensou em pedir ajuda à Mikaylla para sair de lá, mas sabia que isso não adiantaria, já que ela não tinha a chave.
Ainda com frio, naquele ambiente escuro, onde a única fonte de luz era a janela que iluminava aquele cubículo. Margot agarrou seus joelhos, enquanto seu queixo tremia sem parar. Suas forças eram totalmente focadas em não morrer congelada. — Mas como Nicolas disse, uma pessoa fria não morre congelada. — Margot pensou.
Essa não era a noite mais atormentadora de sua vida, mas com certeza, estava entre uma delas. Em meio à aquela situação de afligimento, uma silhueta refletiu-se na pequena janela do depósito, ficando estagnada, como se estivesse observando tudo dentro daquele cubículo. Não dava para ver quem era, pois o vidro dificultava a visão, mas com certeza, havia alguém ali. O corpo de Margot estremeceu, e sua respiração começou a ficar descompasada. Suas mãos eram esfregadas uma na outra na intenção de dispersar o suor que se acumulava nas palmas, devido a situação inquietante. Ela queria correr, mas não conseguiria dar um único passo se quer, pois sabia que suas pernas iriam fraquejar, e também, não havia para onde ir. Uma sensação de sufocamento tomou conta de seu corpo, fazendo com que sua respiração ficasse águda e áudível.
A silhueta, da mesma forma que apareceu, desapareceu. Provocando um alívio na jovem, mas ainda despertando a aversão de seus sentidos, que só foram intensificadas, após minutos depois, seu celular vibrar. Era um número desconhecido, e após hesitar um breve momento em atender, acabou atendendo.
— Alô? — Margot não conseguia disfarçar o tremor de sua voz. Do outro lado da linha era possível escutar apenas uma respiração ofegante. — Quem é?
— Ninguém se esconde por muito tempo. — disse uma voz distorcida e grossa. E após a pronúncia, desligou.
O corpo de Margot enrijeceu, e ela se questionou se a mesma pessoa que estava parada na janela anteriormente, era quem havia feito essa ligação. Em pânico, passou as mãos pelos cabelos, e observou Nicolas deitado no chão. Ele parecia estar em um sono profundo.
Em uma atitude desespereda, impulsionada pelo medo, Margot deitou-se ao lado de Nicolas, desejando mentalmente que ele não acordasse e visualizasse aquilo. Para a jovem mulher, era muito díficil passar por cima do próprio orgulho, mas naquele momento, seu medo era único que conseguia a proeza de passar por cima de seu orgulho, e mesmo que no outro dia ela se arrependesse amargamente, a tensão daquela situação pedia atitudes precipitadas.
Os braços de Nicolas, involuntáriamente, contornaram sua cintura, fazendo com que seus corpos se aproximassem, e seus rostos ficassem a centímetros de distância um do outro. Margot jamais admitiria que aquela situação a deixava confortável. Há muito tempo ela não sentia-se acolhida daquela forma, mesmo que o homem que estava proporcionando aquela sensação momentânea estivesse adormecido, e nem percebesse suas atitudes, era algo que Margot nunca havia se permitido receber de ninguém.