XI

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Cheguei no apartamento arfando por causa das escadas. Sentia o corpo fraco, mole, quase incapaz de bater na porta. O estômago dolorido por causa das múltiplas vezes que vomitei no hospital, cheio dos dez copos de água que bebi pouco antes de chegar ali. Ele abriu, e eu me joguei em seus braços.

Senti-me suja. Senti-me fraca, manipulável e estúpida. Mas eu precisava dormir. Antes de tudo, eu precisava dormir. Mal senti suas carícias. Senti de verdade depois de dormir, enquanto sonhava que viajávamos juntos a Paris. 

Acordei primeiro, a bexiga explodindo de cheia. Fui ao banheiro, e, depois, vomitei. Vomitei as emoções. Não olhei para ele. Quem sabe um só olhar, depois um sonho tão intenso, fosse o suficiente. Caminhei devagar, procurando algumas coisas. Eu sabia onde ele guardava tudo no apartamento.

Acordei-o com um balde d'água na cara.

"Se você gritar eu te mato." Minha voz era fria. Quando... Como eu me tornei aquela pessoa? Eu era tão amável. Tão feliz. Eu tinha amor a dar. Era culpa dele. Aquele desprezível, aquele inseto nojento... Aquele filho da puta. Ele se agitou na cama, desesperado, percebendo tarde demais os braços e pernas atados na cama.

"O que... O que foi, amor? O que é isso?" Ele viu a faca e se calou.

"Você precisa parar", eu disse, já sentindo as lágrimas escorrendo.

"Parar... Parar com o quê?"

"Parar com os sonhos. É você, não é?", eu disse, soluçando, implacável. Via o medo nos olhos dele, e no reflexo da íris via uma garota magra e cheia de ódio. Vi meus próprios olhos, frios. Olhos de uma assassina. De uma maníaca. Era culpa dele.

"É você que faz eles, não é?"

"Faço o que? Eu não..."

A faca deslizou pela barriga dele, arrancando um filete de sangue. Movi minha mão rápido e cobri sua boca.

"Não se faz. Seu... Como você pôde fazer isso comigo? Eu nunca te amei. Eu nunca te quis. Mas os sonhos... Eles começaram antes da gente ficar junto, não começaram? É assim que você faz? Você faz as garotas sonharem, e acharem que..."

Recuei, caindo sentada no chão. Era demais. Demorei a conseguir ouví-lo falar, acima do meu choro compulsivo.

"Do que você tá falando? Sonhos? O que eu fiz?"

"Não. Não se faz." Fiquei de pé de novo, as lágrimas caindo e cobrindo meus seios nus, descendo até as pernas. A mão da faca tremia. "Eu vi seu sorriso ontem. Você sabia que eu ia voltar, não sabia? Era o único jeito de parar os pesadelos. Da mesma forma que você sorria antes, sabendo que eu ia voltar depois de sonhar que te amava. É assim que você faz? Você faz a garota sonhar tanto com você que ela acredita que te ama... Isso... Isso não te faz mal? Você nunca sentiu alguma empatia por mim, nunca pensou em como você me fazia sentir? Os pesadelos, os..."

Caí de novo. Ele não falou. Chorei até não conseguir mais respirar, depois mais um pouco. Ouvi ele tentando se livrar das amarras, mas eu as fizera muito bem.

"Eu não sei do que você tá falando. Calma, vamos conversar. Vem cá. Eu te amo", ele disse, suave, baixinho.

"Não." Levantei mais uma vez. "Admite."

"Admitir o quê?"

A faca cantou. O sangue saltou da coxa e escorreu, o fedor férreo tão intenso e real quanto nos sonhos. Nos pesadelos que ele mesmo... Não. Sem mais lágrimas.

"ADMITE!", berrei, sentando em cima dele, a faca pousada em seu peito. "Admite que você me fez sonhar com você. Me fez admitir que te amava só pra me ter."

"Eu nunca..."

O sangue saltou do peito e manchou minha cara.

"Não funciona assim", solucei. "Você não pode fazer isso. Não pode seduzir as garotas assim. Não pode puní-las depois."

Quando consegui encará-lo de novo, ele sorria. O seu sorriso desprezível. Seu sorriso convencido. O sorriso que eu pensava que amava. Que odiava.

"Eu não sei do que você tá falando", ele disse, ainda sorrindo, os olhos dizendo que sabia sim. "Mas... Você não vai conseguir ir adiante com isso. Eu já tô sangrando muito. Por favor, me solta e vamos conversar." 

"Não. Admita que é você. Que eu não estou louca." 

O sorriso dele praticamente era a resposta, apesar do que os lábios diziam.

"Você não vai conseguir ir adiante com isso. Eu te conheço. Você é uma garota boa. Você é gentil." 

"Eu era assim. Eu era tão boa, tão legal... Mas olha o que você fez comigo."

Os olhos dele fixaram-se nos meus, arregalados. A expressão ficou mortalmente séria. Percebi que eu provavelmente dormira só umas poucas horas antes de acordar e ter que ir no banheiro. A exaustão tomou conta de mim, tão implacável que mal consegui pensar antes de desabar na cama.

Sonhei com VocêOnde as histórias ganham vida. Descobre agora