IV

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Os meses passaram, e eu pensava cada vez mais em você. Não de uma maneira romântica, mais por uma comparação. Você foi a primeira pessoa que eu amei, então era a única referência que eu tinha. Será que foi assim com você? Eu achava que não. Eram duas coisas diferentes, como o calor de um cobertor e o fogo de uma... Lâmpada, quente, dentro do meu estômago. Será que eu nunca te amei de verdade? Será que aquilo que eu sentia por ele é que era amor, e antes eu só estive me enganando?

Eu não sei.

Os sonhos viraram rotina. Não foi assim antes? Eu não sonhava com você antes dele? Toda a noite eu me apaixonava, mas todo o dia, bem no final do dia, vinha um mal estar. Demorei para entender o que era. Para aceitar. No sonho o sentimento era muito intenso, grande e incontrolável, enquanto no mundo desperto...

Percebi que lutava para isso. Lutava para amá-lo, tentava, mas nunca era tão forte quanto nos sonhos. Eu queria que fosse. Queria acordar e nunca sair daquela emoção, deixá-la me corromper como uma droga, mas não conseguia. Consegui alguma vez?

Não funcionava mais. Despertava amando-o imensamente, mas quando o via percebia que aquele sentimento era só um resíduo do que tive na cama.

Eu tinha que fazer alguma coisa. Não era normal. Não era saudável, não era justo com ele. Eu via que ele me amava, era claro, real e até meio assustador. Sempre que eu pensava em falar sobre isso sonhava que estávamos juntos num mar de rosas, sozinhos nas nuvens, velejando. Sonhava que o mundo era só nós dois pelo espaço, tão próximos que dividíamos pensamento. Sonhava que não podia viver sem ele. 

E acordava acreditando nisso, acordava pensando que a minha insegurança era besteira. Que eu o amava de verdade, e estava só sendo difícil lidar com isso.

Sumia num par de olhares.

Terminar foi a coisa mais difícil que eu fiz na vida. Foi rápido. Seco. Sequer me lembro das palavras. Esforcei-me para não chorar, para não pensar no sonho maravilhoso daquela noite, mas fui firme. Não era certo. Vi os olhos desolados dele me encarando, mortos, eles e um sorriso espasmódico, então virei as costas e não olhei para trás. Era o certo, pra mim e pra ele.

Sonhei por uma semana. Sonhos dignos de poesias épicas sobre amor, dignos de prosa romântica de fazer o coração derreter. Suficientes para me fazer acordar com um sorriso nos lábios, só para explodir em lágrimas. Minha irmã achava que era só eu lidando com o término. Muito mais intenso que da última vez, sim, mas ainda normal. Ela talvez percebesse que havia algo estranho no meio, mas... Subitamente ficamos distantes. Eu não podia contar pra ela, podia? Ela ia me mandar pra um psicólogo, e não tínhamos dinheiro pra isso. Talvez fosse a coisa certa, mas eu me sentia mal só de pensar nela trabalhando para me ajudar a pagar.

Mas havia uma saída mais fácil. Um telefonema, e tudo ficaria bem.

Sonhei com VocêOnde as histórias ganham vida. Descobre agora