VIII

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Apareci no apartamento da minha irmã um dia desses. Ela se mudara há algum tempo, eu nem sabia quanto. Não nos falávamos muito. Abriu a porta, surpresa, vendo os círculos roxos abaixo dos meus olhos, meu corpo estremecendo com o cansaço de quarenta e oito horas desperta. Não consegui enunciar um pensamento. Caí em seus braços, soluçando.

"Não me deixa dormir. Por favor não me deixa dormir. Eu terminei com ele, não posso dormir."

Fiquei alguns dias na casa da mana. Ele não sabia onde ela morava, e eu não retornei nenhuma das ligações. Tomei pílulas de cafeína, corri toda a vez que tinha sono, saltei no lugar, subi escadas. Contei à minha irmã, sentindo-me tão tola, tão pequena, e ela compreendeu. Não me achou louca. Desabei em seu ombro pela milésima vez. Ela disse que eu precisava de ajuda, e, pela primeira vez, concordei.

Dormi tranquila, confiante. Era uma bobagem qualquer. Eu sonhava com ele porque... Eu queria. Era isso, não era? Sonhei e acordei com o coração explodindo. Foi uma fusão de imagens, sons e emoções como eu nunca tinha sentido. Nunca amaria tanto alguém na vida quanto o amei naquele sonho. Mas era isso, não era? Um sonho. Só.

Comecei a correr de noite. Fazer boxe, bater em coisas ajudou. Foquei mais nos estudos. Engoli tudo que vinha com o despertar. Toda a vez que eu queria voltar, que eu soava meio estranha, minha irmã me parava. Impedia-me de sair de casa. Eu esperneava, batia nela, mas no final eu sentava em posição fetal e agradecia. Mas ainda só fingia que ia num psicólogo. Nunca conseguiria contar aquilo a um estranho.

Algumas semanas depois a vida pareceu voltar ao normal. Eu até o via entre os corredores da universidade, e não sentia nada. Só um resquício de nojo. Pegava as emoções dos sonhos e as enterrava fundo dentro da mente, depois de um banho frio e uma corrida, toda a manhã. Sentia-me séria, fria, mas era o melhor que eu conseguia. Eu era uma parede de aço. Num dia qualquer, consegui até ignorá-lo completamente. Deixei escapar um sorriso triunfante, passando por ele no corredor.

Pela primeira vez em um ano e três meses não sonhei com aquele garoto. Tive essa percepção enquanto mergulhava no limbo dos sonhos, e senti-me livre. Leve. Bem. Teria um daqueles sonhos de ficção científica de antes, ou aqueles de cores e formas que não me faziam sentir nenhuma emoção.

Doce, doce ilusão. Belíssima esperança.

Sonhei com minha irmã morta. O corpo frio, aberto, coberto de sangue e tripas jogado bem na minha frente.

Sonhei que eu morria, de novo, de novo e de novo, cada vez de uma forma mais dolorosa, mais lenta e mais gráfica. Vi minha cabeça esmagada por um martelo mais vezes do que qualquer um consegue sem enlouquecer.

Sonhei que doze homens me agarravam na rua e me violentavam, ali mesmo, todos olhando. Eu sentia o desespero, a dor, a impotência, tudo tão intenso, tão real...

Tão real quanto era o amor dele nos sonhos de antes.

Não saí de casa por três dias. Não comi, não dormi, não fiz nada. Tentei contar à minha irmã, mas não consegui falar. Não sobre isso; não consegui abrir a boca. Não consegui parar de tremer.

No segundo sonho desses finalmente desisti. Fui a um psicólogo.

Depois de duas horas ele arrancou algumas palavras de mim. Minha irmã achava que eu estava catatônica por algum motivo, e nem ao ver o desespero dela eu consegui falar. Mas o homem era bom. Me acalmou. Consegui conversar um pouco com ele. Omiti os sonhos de antes, os sonhos com o garoto, mas falei dos pesadelos. Disse para ele me receitar algum remédio que não me fizesse dormir. Ele disse que não conhecia nenhum medicamento do tipo.

"Mas aconteceu algo parecido com uma paciente minha uma vez", ele disse, puxando alguns papéis da gaveta. O celular dele tocou, e, enquanto ele desceu para desligá-lo, deixou a ficha em cima da mesa. Reconheci aquela foto.

Sonhei com VocêOnde as histórias ganham vida. Descobre agora