IX

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A desculpa de "velha amiga de colégio" sempre funcionava. Mesmo numa instituição como aquela, tudo branco, os gritos no corredor, as pessoas catatônicas vendo tevê e tomando seus remédios. Seguranças observando cada movimento. Era pior do que eu imaginava. Mas eu precisava encontrar aquela garota.


Ele nunca falara muito de sua ex. Parecia que fora algo traumático, e eu não perguntei. Nos últimos meses juntos, e só aí, senti que havia rancor envolvido. Ele odiava aquela garota por algum motivo. A garota que eu vi ali, sentada, inerte, jogando damas sozinha na instituição branca.


Eu tinha visto-a meia dúzia de vezes antes. Era bonita, do tipo que me deixara insegura nos primeiros meses com ele, pensar que sua ex era uma loira com sorriso fácil e grandes olhos brilhantes.


Parecia que ela tinha envelhecido dez anos em dois. Perdera peso demais. Os dedos ossudos brincavam com as peças no tabuleiro, incapazes de colocá-las nas casas corretas. Abaixo do olhar morto, eu vi as olheiras. Olheiras de quem tentava não dormir.


Desde que os pesadelos começaram eu tinha perdido cinco quilos. Passei as mãos pelo rosto, sentindo os ossos salientes. Sentindo minhas próprias olheiras.


Ela não me reconheceu. Tentei conversar amigavelmente, trocar amenidades, mas ela não estava nem ali. As drogas que davam a ela eram fortes. Finalmente eu mencionei o nome dele, e os olhos da garota subiram aos meus.


"Eu sonho", ela disse, lenta. "Eu sonhava com ele o tempo todo. Toda a vez que pregava os olhos. Mesmo depois que terminamos. E depois... Depois..."


Ela caiu em pranto, tremendo violentamente, e a enfermeira pediu que eu me retirasse. Quase não consegui me mover. O corpo estava duro, os olhos esbugalhados. Suava frio. Esqueci de respirar.

Sonhei com VocêOnde as histórias ganham vida. Descobre agora