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Eu nunca sonho. Quero dizer, até tenho uns sonhos, mas normalmente são bobos, ou algum elenco de filme ruim de ficção científica ou algum quadro surrealista em movimento. Nunca situações possíveis, nunca coisas que as pessoas parecem normalmente sonhar. Sempre é algo bizarro, vago, que eu lembro em fragmentos e esqueço ao longo da manhã.


Por isso foi tão impressionante sonhar com ele.


Não o conhecia muito bem. Era mais amigo da minha irmã, e devia ser uns anos mais velho, como ela, já que estudaram juntos. Eu e ele já tínhamos conversado algumas vezes, numa daquelas festas que eu e você costumávamos ir com aquele grupo de amigos que era mais da mana do que meu. Depois que terminamos não tive vontade de sair de casa, então fazia algum tempo que não via o garoto do sonho.


Levantei da cama meio tonta, sem entender, juntando os pedaços do que acabara de acontecer no meu subconsciente. Era como se estivéssemos em uma festa, mas eu era solteira e ele também e... Não sou boa nisso, nunca fui. Sempre me achei desajeitada, ruim com as palavras, tímida demais. Mas no sonho nós conversávamos abertamente, trocávamos olhares... Flertávamos de um jeito natural, que foi até gostoso.


Nunca tinha acontecido isso entre nós. Ele era gentil comigo, quem sabe tenha me dado uma carona ou outra, mas nunca deu a enteder que queria algo a mais. Afinal, ele tinha uma namorada dessas de sei lá quantos anos, da mesma forma que eu tive, até pouco antes daquele sonho.

Perguntei pra minha irmã sobre ele. Tentei segurar o sonho dela o melhor que pude, mas hesitei ao falar o nome. Era difícil mentir para a mana sobre qualquer coisa, e não sei exatamente por que escondi aquilo. Ela estava ocupada fazendo o café e não viu o meu rosto.

"Sei, não falo com ele há uns dias. Desde que terminou com a namorada, acho."


Estava distraída e mudou de assunto. Não falei mais sobre ele. Naquele primeiro dia fiquei atenta. Estudávamos no mesmo lugar, mas raramente nos víamos. A cada esquina que eu cruzava esperava vê-lo, só um vislumbre, e ter mais uma vez aquela sensação que eu tive no sonho, ser o foco de seu olhar, ser a causa de seu sorriso.


Não aconteceu. Não o vi, esqueci do sonho, e de noite eu já nem pensava no garoto. Fui dormir com um seriado na cabeça, distraída.


Na segunda noite foi diferente. Caminhávamos pela cidade, conversando, rindo. Ele me mostrou o pôr do sol, e segurou a minha mão. Vi seus olhos escuros presos nos meus, a brisa de alguma cidade de praia fazendo meu cabelo tapar os olhos. Ele ergueu a mão, arrumando meu cabelo, mas os dedos não desceram. Subiram até a orelha, acariciando a nuca, chegando mais perto...

Acordei suando. Meu coração explodia no peito, e os lábios tremiam. Era tão real. Mais um segundo e teríamos nos beijado. Só de pensar nisso, de imaginá-lo tão perto, meu estômago embrulhou, a barriga fria com o nervosismo. Sozinha no quarto, senti-me ainda presa nos olhos dele, na sua presença.

Minha irmã viu algo estranho comigo de manhã. Talvez tenha notado os olhos esbugalhados, a falta de palavras, o cabelo desarrumado.

"Vai passar", ela disse. "Um dia você esquece ele."

Quase derrubei o café, o calafrio forte causando um espasmo. Como ela sabia? Éramos tão próximas que ela lia mentes agora?

Ah. Ela estava falando de você. Eu acenei, cansada, fingindo estar triste com isso. Aquele foi o primeiro dia que acordei e não pensei no meu primeiro, e recentemente ex, namorado. Em você.

Saí de casa de novo com expectativa de vê-lo, desta vez um pouco maior. O sonho foi tão intenso, tão real, que não sabia como eu iria reagir se visse ele. Quem sabe pudesse chamá-lo pra... Tomar um café, isso que as meninas fazem? Ir no cinema? Não, muito direto... Apesar de que, se ser direta garantisse um beijo dele...

Demorei a perceber o quão estranho era ter tido dois sonhos daquele seguidos. Já de tarde, quando o pensamento ocorreu, não tive tempo para pensar muito a respeito. Virei uma esquina, franzindo o cenho, e dei de cara com ele.

"Oi."

Repeti as palavras, ele sorriu, retribuí, nos afastamos. Coisa de conhecidos não próximos. Fiquei paralisada demais para falar qualquer outra coisa. Lembrava que ele até que era bonitinho, mas não tinha chamado muito a minha atenção. Nada espetacular. Talvez agora estivesse um pouco mais forte, um pouco mais arrumado, ou talvez eu que ainda tivesse o sonho na cabeça.


Perguntei sobre aquele grupo de amigos que ele fazia parte para a minha irmã. Não sei exatamente por que
omiti os sonhos. Eu contava tudo pra ela. Costumava contar tudo pra ela.


"Não vejo eles há uns meses. Mas sexta feira tem aquela festa, quer ir?"

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