O mundo aos olhos da Rosa

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          As batidas na mesa ecoavam em conformidade com os berros alternados da mulher de meia-idade:

          — Tenho que falar quantas vezes pra você me obedecer? Não quero te ver na rua com ninguém depois da aula.

          Íris permaneceu calada sobre a cadeira. Estava olhando para o prato de sopa rala que, vez ou outra, experimentava a pequenas colheradas. A face ossuda e rugosa da mãe a assombrava quando tornava a olhar para cima.

          — Por que está gritando comigo? — gritou a filha em resposta, batendo na mesa. — Eu só quis caminhar depois da aula, mãe...

          Primeiro, veio o aviso. O braço ergueu-se impetuosamente, como uma tempestade em alto mar, e, depois, baixou-se sobre seu rosto, causando um estalido. Sua bochecha avermelhou-se e a mãe voltou a gritar.

          — Mentirosa. Você quer me largar aqui, não quer? Me largar nesse buraco e fugir com algum moleque. Primeiro, você ganha uma bolsa nessa escola, sem nem contar pra sua mãe. E agora faz isso! Conte a verdade pra mim...

          — Eu já vou indo — disse ela em seguida, tentando subir para o quarto, mas foi agarrada pelo braço.

          Por um momento, os olhos de ambas se encontraram. Íris, naqueles momentos, via um misto de amor e inveja, mas logo havia uma interferência e tudo era desmanchado. A filha pediu perdão, mesmo não querendo. Não sabia por que precisava implorar para que a mãe a deixasse ir para o quarto, mas ela realmente esperou que a matriarca da casa estivesse num "dia bom". Um "dia bom" significava que ela não levaria marcações a ferro no corpo.

          — Dá o braço aqui... — disse a mãe, indiferente.

          A filha quis chorar, berrar, gritar que não era mais uma criança para apanhar daquele jeito, mas se o fizesse, seria pior para a saúde e o humor da mãe. Havia treinado como segurar as lágrimas por um determinado limite de tempo, justamente para não irritar seus algozes ainda mais. No entanto, ela também tinha consciência de que estava cumprindo sua própria provação: havia de ser resistente o suficiente por si mesma.

          Íris estendeu o braço, fechou os olhos e aguardou que o espancamento terminasse. A fivela dura de cobre não acertava só os membros, chicoteava-a também nas costas e abdômen. Geralmente, depois que acabava, a mãe arremessava-se no sofá, exausta, pois ficava cansada e ofegante por qualquer coisa.

          — Você não é nada, nem ninguém, garota. Não presta pra nada, então não ouse me deixar aqui. Você não tem pra onde ir, não tem ninguém para quem correr a não ser eu. E é bom começar a me obedecer de uma vez, se não quiser sofrer as consequências.

          A bronca não mudava. Antes de virar o rosto e ir para o quarto, Íris apenas disse, com a voz fraca:

          — Eu te amo, mãe. Te amo muito, mesmo. Mas você não facilita...

          Em seguida, com os olhos marejados, ela subiu a escada, seus pés batiam rapidamente no assoalho. A mãe não disse uma palavra.

          No corredor superior, Íris virou e entrou na câmara que a representava: uma suíte cinzenta e sufocante. Só havia uma TV velha jogada no chão, um armário minúsculo e uma cama que rangia com leves movimentações. O cômodo não continha nem mais um móvel: nem escrivaninhas com livros, nem criado-mudo. Todo seu material escolar ia no fundo do guarda-roupa.

          Ela largou a mochila num canto e foi direto para o banheiro. Abriu a torneira da pia, lavou o rosto e, por um momento, ficou se observando no espelho. O que ela esperava era uma mudança, mas só via o mesmo rosto, desolado e marcado de todos os dias estampado ali. As manchas pareciam piores depois que tomava sol ou apanhava da mãe, e ela nunca pensou que ficaria com tanto nojo de ser quem realmente era. Mesmo que fosse só mais um dia dentre tantos outros sendo estigmatizada, e mesmo que a mãe continuasse a dizer que ela era um estorvo, que não servia pra nada e nem tinha nada — "você não presta pra nada, garota, não é ninguém e nunca terá ninguém" —, Íris não conseguiu suportar.

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