Fazendo novos amigos (ou pelo menos tentando)

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          Meus novos companheiros pareciam gostar de mim. A atmosfera ao meu redor me fazia querer voltar no tempo e frequentar uma escola de verdade. Acho que parei de estudar na quinta série, então já nem me recordava agora, com vinte anos, do que era estar entre pessoas com tantos sonhos e objetivos.

          No horário de almoço, reuni-me na sala de aula com o grupo que se sentava perto da minha carteira. Ártemis parecia ter saído irritada por algum motivo, mas resolvi ficar e observar meus colegas. Eu não queria que ninguém ali estivesse passando por um momento difícil, mas meu trabalho era ajudar, caso houvesse alguém nessa situação.

          Uma das meninas do meu grupo não parava de falar em um desses seriados policiais de televisão, enquanto o resto da equipe ria e discutia sobre os personagens. Será que era um momento ruim para interromper e perguntar sobre casos de bullying? De toda forma, não acho que eles conversariam tão abertamente assim sobre isso. Afinal, certas coisas não precisavam ser ditas.

          — E você, Natto? — perguntou uma das garotas. — Por que se transferiu para cá?

          Ah, porque sou um super-herói, meio desajeitado, desejando salvar a vida de alguém, unir as pessoas do mundo todo e, de quebra, aumentar meu time de mutantes.

          Era o que eu gostaria de dizer. Mas, quem sabe, logo, logo, eu não conseguisse me revelar ao público de modo mais espontâneo?

          — Bem, eu vim para a Santo Augusto no intuito de elevar meus estudos de nível, além de, claro, fazer amigos e curtir minha vida de estudante. Espero que possamos nos dar bem.

          — Nossa, ele é tão legal. Até que enfim entrou alguém assim nessa sala.

          — E é um gato também...

          A despeito dos comentários, comecei a olhar pela classe, vasculhando possíveis colegas quando, de repente, algo me chamou a atenção. Mal dava pra ver, pois ela estava no fundo da sala, mas havia uma garota solitária com o semblante chocho, no meio de todos os grupos, encostada na parede da janela. Poderia essa ser a minha deixa?

          — Ei, pessoal, por acaso, ela também é uma aluna nova?

          Percebi que o tom mudou quando eu a trouxe à tona. As meninas e os meninos ficaram mais sérios e calados. Alguns tentaram desconversar; bingo, parecia que encontrei o que procurava.

          — Bem, acho que vou me levantar para conhecê-la.

          — E-Espere, Natto!

          Quando me aproximei, percebi que não se tratava de uma garota comum. Seu olhar era um pouco assustador, e o estilo um tanto obscuro: cabelo chanel preto virado de lado, olheiras sob as pálpebras caídas. Mas o que chamava mesmo a atenção era outra coisa. As várias manchas de descoloração espalhadas pelo rosto e nas mãos, círculos, linhas brancas e disformes na pele morena. Como era mesmo o nome dessa doença? Embora estivesse fazendo um calor de matar —, por isso todo mundo havia tirado o blazer —, ela ainda o usava. Dava vontade de derreter só de olhá-la. Toda aquela roupa tornava difícil um mero toque casual ou ao acaso na pele dela. Era bem simples verificar se alguém tinha o gene da síntese pré-ativado ou não: minhas células deveriam encostar nas do portador. Parando para pensar, será que se eu arrancasse um fio de cabelo e jogasse nela, eu conseguiria transfigurá-la?

          Bem, isso seria impossível agora, então quem sabe eu não tentasse outro dia. Dessa vez, resolvi cumprimentá-la, estendendo o braço.

          — Oi. Tudo bem com você? Eu sou o Natto. Não fique aí sozinha, venha se juntar conosco. Qual é o seu nome?

          Primeiro, ela me fitou com o semblante mais desinteressado do mundo. Depois, voltou o olhar para a janela, me ignorando. Fiquei ali parado com a mão estendida, feito um idiota.

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