Continue Correndo

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— Capítulo 5 —

          Na segunda-feira de manhã, Samuelcombinou de ir ao centro com o pai para acompanhá-lo a resolver as pendênciasda fazenda. Como pequenos empresários do ramo agricultor, eles precisavamfechar bons negócios com os varejistas da cidade o quanto antes para assegurara prosperidade. Contudo, Samuel estava mais preocupado com o que diria ao seutécnico depois de faltar alguns treinos do que com o trabalho. A preocupaçãonão o deixava em paz, até o momento em que, enquanto amarrava seus tênis decorrida em frente à porta de casa, viu Bia brincando com o tablet no sofá da sala de estar.

          A casa estava bem movimentada: funcionários andando de um lado pro outro, como costumava acontecer em dias úteis. Assim, apenas a cuidadora que trabalhava esporadicamente pra família conseguiria ter tempo para conversar com Bia. No entanto, quem acompanhava a irmã naquela vez não era a contratada, mas a priminha Aiane. Ela usava um vestidinho florido e um colar de pérola caro no pescoço. Tinha só oito anos e era espertinha o suficiente para saber como tratar com a prima.

          — O que houve, Aiane? Aonde foi a cuidadora? — perguntou Samuel, se sentando ao lado da irmã.

          — Ela não chegou ainda, primo. Achamos que ficou doente, por isso a tia me disse pra olhar a Bia.

          —Não acredito! Pra que será que a gente paga aquela mulher em dia, hein?

          Bia não conseguia se concentrar muito bem, precisando ter sua atenção constantemente chamada quando estava aprendendo alguma coisa. Por alguma razão, naquele momento, ela olhava fixamente para o tablet, pressionando repetidamente o mesmo quadrado do touch screen.

          — Humm... O que houve, Bia? Está quebrado?

          A garota parecia uma estátua cabisbaixa. Dificilmente ficava quieta, mas se havia algo que, depois de tanto tempo convivendo com a irmã, Samuel conhecia muito bem nela — uma daquelas características que só a intimidade poderia proporcionar —, era que Bia costumava ficar quieta demais ao se entristecer. Isso acontecia quando ele se recusava, depois de um longo período de treinamento ou um dia de provas na escola, a ir correr ou brincar com ela.

          — Acho que o tablet está com defeito — disse Aiane. — Você aperta e aperta nessa parte aqui e nada acontece. Olhe!

          Ele pegou o aparelho e o examinou. Ao notar que não havia como clicar no aplicativo das músicas, que ficava do lado esquerdo da tela, Samuel soube na hora a razão do jeito da irmã.

          — Ah, então quer dizer que você não pode cantar? — exclamou. — Poxa vida, então parece que vamos ter que ajudá-la e fazer isso nós três em vez disso, Aiane. O que acha, Bia? Qual era mesmo a sua música predileta...?

          A prima captou a mensagem e, pulando no sofá, entoou:

          — Seu Lobato tinha uma fazenda, ia ia ô... E lá na fazenda tinha um porquinho, ia ia ô...

          Bia começou a bater palmas e balançar a cabeça de novo. Samuel, satisfeito, começou a acompanhar a música e os barulhos guturais dela. Por mais estranho que fosse para alguém de sua idade — e ele tinha consciência de que isso não era normal —, adorava cantar músicas de criança e nem se sentia uma ao imitar a priminha Aiane.

          Depois que terminaram de cantar, ele pôs a mão sobre a de Bia e lhe deu um abraço apertado. Não se cansava de lhe dar carinho e achava a melhor coisa do mundo ter uma irmã que não encrencava com ele sobre suas meias sujas jogadas no chão do banheiro, ou que não reclamava quando ele comia todos os pedaços de pizza que sobravam.

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