A Caçada

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          Naquela manhã, Íris se dirigiu ao shopping do centro comercial, visando se encontrar com as pessoas que vira no quintal de casa, noite passada. Como era sábado, e o período de aula acabava mais cedo, ela cruzou as portas de vidro automáticas exatamente no horário em que os estudantes da Santo Augusto iam em massa até lá para começar o fim de semana com o bom e velho combo de cinema e fast-food. Ela caminhava entre a multidão com o rosto encoberto por um capuz, vestindo camiseta e um jeans que pegou de uma paciente no hospital. Mesmo que fosse só uma possibilidade, Íris tinha certeza de que os valentões estariam ali, discutindo formas de se safar. Eram espertos e idiotas o suficiente pra isso.

          No meio do caminho, um garotinho que andava distraído esbarrara nela. Trajava roupas de festa junina: camisa quadriculada e um lenço vermelho no pescoço. Íris estendeu o braço e, com ternura, ajudou-o a se levantar.

          — Desculpe, moça. Está tudo bem?

          — Hã...? S-Sim, está sim — disse ela, apenas notando depois o quão engraçadinha foi a pergunta para alguém tão pequeno. — Onde estão seus pais?

          O menino franziu o rosto, lhe lançando um olhar atrevido. Íris estremeceu. Mesmo com o capuz, ainda era possível vislumbrar seu rosto, e, sempre ao se recordar de crianças, memórias ruins dominavam sua mente. Na infância, quando tinha dez anos e as manchas começaram a surgir violentamente, via muitos de seus colegas de classe fazendo caretas e a zombando, chamando-a de "zebra" e "vaca", dizendo que iam pegar sua doença, que, se tocassem nela, teriam suas peles derretidas, ficando horríveis e se tornando bonecos de cera iguais a ela.

          Mas o garotinho não fez isso. Em vez de ter medo, ele a pegou pela mão e sorriu. Íris abaixou a cabeça e começou a procurar pelos pais dele. Andaram por cerca de dois minutos cruzando a multidão, que entrava e saía de lojas de perfume e roupas esportivas. Os pais, sentados num banco procurando pelo garoto, se sentiram aliviados ao não precisar acionar a segurança do local. Agradeceram à menina de capuz e, depois, voltaram a caminhar.

          Quando o menino se voltou de costas e parou para vislumbrá-la, Íris temeu ouvir algum insulto, mas ele apenas gritou, de modo dócil e ingênuo:

          — Tchau, moça bonita. Muito obrigado!

          Íris arregalou os olhos e abaixou a cabeça. A expressão de tristeza voltou a empalidecer seu rosto. Não sentira nada com aquele elogio, pois sabia que foi por causa da força que havia ganhado ontem à noite, ao tocar naquele frasco de sangue, que ela estava ali, agora, naquele novo estado.

          A verdade é que sua nova aparência era fútil. Ela não queria mais se olhar no espelho, nem contemplar seu belo reflexo nas vitrines das lojas lhe dizendo que ela mudara pra melhor. Já não sentia mais desprezo pelo corpo, apenas uma descomunal estranheza, como se outra pessoa a observasse do outro lado do reflexo.

          Ela se sentou no banco em que encontrara os pais do menino e ficou, por um tempo, pensando se valia mesmo a pena continuar sua jornada. Estava atenta à paisagem. Seus colegas de escola andavam em grupos variados, meninos e meninas fazendo gracinhas e apontando para os lados, além de gritarem coisas que mal dava pra entender. Por que só ela não podia estar ali, sendo idiota como eles e viver uma vida simples, bem aproveitada, de um jovem? Não podia, de modo algum, chegar na vida adulta e dizer que se arrependia de como passou a adolescência, mas o que podia fazer se o mundo não a ajudava?

          Uma das coisas que notou foi a velocidade das pessoas que passavam sozinhas. Iam embora rapidamente, as pernas apressadas e os olhares no relógio de pulso. Talvez, fossem se encontrar com uma pessoa especial em alguma praça. É, claro, ninguém queria estar só. Por isso, não raro, ela também pensava na possibilidade de se aproximar de um estranho sozinho e tentar fazer amizade. Alguém, sentado em algum canto, não esperando ninguém. A antiga Íris gostava muito daquele jogo: de ficar se imaginando no meio dos grupos de colegas da escola, pensando se poderia caminhar entre eles, normalmente, sem ser julgada por sua aparência ou seu jeito fechado.

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