A Fuga

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— Capítulo 14 — Équis —

          "Équis" é o som que você faz com a boca quando fala "X" em inglês. Esse é meu nome. "X". E você pode até achar que isso é um apelido estúpido com uma motivação tosca por trás, mas não olhe para mim. Isso faz parte do ser excêntrico chamado Natto, nosso querido chefe.

          Cara, quando eu o conheci, as coisas eram bem diferentes do que são hoje. E pensar que, um dia, eu viria Natto falar daquele jeito numa coletiva de imprensa. Foi um tanto assustador, admito. Não quero ser o chato da nostalgia, mas digamos que ele era totalmente distinto do que é hoje quando eu e Ártemis o conhecemos. Eu não sei se ela se lembra ou não dos nossos momentos juntos, ou nem faz questão de se lembrar, porque... bem, ela também era muito diferente. E diferente de um jeito que ela odeia. De todo modo, não faz tanto tempo assim que aqueles dois escaparam das garras desse instituto militar cheio de ambições patriotas. Naquela ocasião, eu não consegui escapar junto deles, mas não me importava: se minha família estava bem, então eu também estava bem.

          Agora, cá entre nós, posso afirmar com toda certeza, como melhor amigo daqueles dois, que eles sempre agiram como dois pombinhos apaixonados, apesar da Ártemis insistir tanto que o chefe era um cara irritante. Coisa de marido e mulher, sabe?

          Eu estava prestes a revê-los, mais empolgado do que nunca. Depois de ajudar Natto a se levantar, o apoiei em meu ombro e o carreguei até o refeitório. A repórter chamada Irina me acompanhou até Ártemis que nos aguardava, pronta para soldar a porta.

          — Eu ainda não acredito que você está vivo — disse ela, em seguida me abraçando. Nossa pitbullzinha ficou toda sentimental quando eu apareci pela primeira vez. Ah, como eram bons aqueles tempos em que éramos crianças e nos comparávamos uns aos outros como cachorros. Acho que o Natto ficou sendo o Golden Retriever, e eu, um Dobberman. Para dizer a verdade, sempre pensei na Ártemis como um Pinscher em vez de uma miniatura de Pitbull, mas acho que ela ficaria ofendida ainda mais se eu a chamasse assim. Só que, de fato, um Pinscher combinava bem demais com ela para não imaginar.

          — Faz tempo, não faz? — comentei, casualmente. — Da última vez que eu te vi... Não, espere. Você está exatamente do mesmo tamanho desde aquele dia.

          — HA-HA. Muito engraçado — respondeu-me ela. — Pelo visto, o seu senso de humor também não mudou nada, menino Équis.

          — Você acha, é?

          Ártemis soldou a porta e me ajudou a levar Natto até uma cadeira.

          Agora, o refeitório estava cheio, todo mundo se amassando como sardinha enlatada. Os reféns da outra sala vieram pra cá com a ajuda de Irina e eu. Encontrei a amiga repórter de Natto depois que revelei minha traição para o IPC, um pouco antes da bomba explodir. Na verdade, eu precisava ter certeza de que os reféns da minha sala estavam seguros antes de tentar ajudar meus dois irmãozinhos briguentos. Havia ainda uma terceira sala da qual eu não tinha muitas informações, embora, pelo que me contou Ártemis, o Nevoeiro estivesse torturando os reféns por lá. As pessoas de lá também se juntaram a nós. Não sei como conseguiram escapar. Talvez tivessem se aproveitado da confusão causada pela explosão.

          Na sua maioria, eram homens de meia idade, que apanharam bastante para aqueles meus antigos companheiros, soldados imundos. Olhos roxos, costelas quebradas, cortes no rosto. As enfermeiras do Instituto cuidavam deles no canto do refeitório. A maioria era composta de jornalistas ou meros transeuntes querendo ver o Instituto. Pareciam furiosos com toda a situação.

          E pelo visto, a coisa não era diferente com Natto, que, deitado numa mesa, acabara de se erguer, punhos cerrados e cara de poucos amigos.

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