A Ideia

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          Nós nos tornamos a nova sensação mundial de Portoleste. Todo mundo queria tirar uma foto ou pedir um autógrafo para o Cavaleiro Natto e suas duas parceiras, Ártemis e Rose. Eu não me importava de estar em segundo plano, jogada de lado para que o chefe assumisse o posto de centro das atenções, por dois motivos. O primeiro é que eu já era famosa o suficiente entre a população da cidade — claro, não dava pra esperar menos de alguém com meu nível de glamour —, e o segundo é que, finalmente, ganhamos todas as nossas merecidas recompensas de vida, então eu não tinha tempo para ficar prestando atenção em qual de nós seria o porta-voz do time com o público.

          Muito mais importante do que isso, a reforma que fizeram na nossa mansão capenga... foi MA-RA-VI-LHO-SA: o luxo que super-heróis de verdade deveriam ter. O prefeito da cidade, tendo em vista nossos sucessos protegendo Portoleste, nos presenteou com uma dispensa enorme, cheia de gostosuras que durariam por milênios — sem mais sopa em todo almoço, agora o chefe poderia fazer minhas frescuras alimentícias para sempre —, mandou colocar cortinas de veludo vermelho encobrindo os vitrais da casa, substituiu os azulejos quebrados, tampou os buracos de ratos e baratas, dedetizou a casa... Pois é, não tinha como eu estar mais feliz. O chefe e a Rose pareciam tão satisfeitos quanto eu.

          Minha nova melhor amiga não era uma estudante comum, se é que já não dava pra perceber isso quando ela quase matou os valentões com seus braços flamejantes. Achei Rose bem fechada no começo. Quieta. Bastante. Mas também descobri que, muitas vezes, ela podia ser não intencionalmente assustadora. Por exemplo, nesses últimos dias de folga, estivemos assistindo a filmes, mais precisamente de terror, enquanto eu e Natto gritávamos aos montes, esperando que a protagonista loira burra conseguisse girar uma chave sem deixá-la cair no chão setenta e cinco vezes. Rose sentenciava com o semblante mais calmo do mundo:

          — Ela deve morrer, pois traiu seu namorado.

          — Mas aí o assassino vence, Rose... — dizia o chefe.

          — Ela é indecente, eu não gosto de pessoas infiéis. Por mim, ela pode morrer.

          E depois que a loira burra viveu, ela quase surtou (ainda muito calma, só que com cara de mau).

          — Filme estúpido em que o mal prevalece. Deveríamos queimá-lo.

          — É... Eu ainda tenho que devolver pra locadora, então é melhor não! — Eu exclamava, aterrorizada.

          Fora esse episódio, Rose se mostrou bem receptiva comigo. Pode-se até dizer que nos tornamos grandes amigas. Ela também era engraçada, embora não fizesse ideia. Certa vez, eu a vi sentada, encarando a chuva por um vitral do segundo andar, e a convidei:

          — Ei, Rose, que tal irmos dar um trato nos nossos cabelos? Sabia que abacate é ótimo para hidratação?

          — Tudo bem — disse ela, enquanto um relâmpago trovoava lá atrás. As lesões do vitiligo cintilavam fortemente em sua pele, mas Rose não parecia mais se importar. Talvez porque nem eu, nem o chefe nos importávamos.

          Quando fui preparar a loção, ela pegou a colher e começou a comer o abacate.

          — Ahm, Rose? É para passarmos no cabelo.

          Ela ficou avermelhada e me devolveu a colher. Parece que sua mãe não fazia essas coisas com ela, então me senti um pouco especial depois dos nossos tratamentos de beleza. Percebi que Rose gostava bastante de cuidar de si mesma, por isso saíamos muito juntas para spas e salões. Era divertido e relaxante para mim, que, obviamente, merecia tudo isso e mais um pouco. Mas deixando de lado o que eu mereço ou não...

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