Feche os Olhos Que o Sono Vem

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Carros, motos, bicicletas, havia ninguém no meio da rua; as casas com insônia bocejavam; o Sol estendia-se entediado por sobre as nuvens; ah! O ar puro bem produzido e enlatado.      

Tiago estava na rua onde morava.

Árvores tétricas, geométricas enfileiravam-se nas calçadas. O céu pálido. A rua deserta. Havia algo pichado no muro, algo que ele não reconhecia, não conseguia ler.

Sua rua... Nostalgia... Como é reconfortante ver algo familiar, mesmo estando errado.

Tiago tinha esta impressão: as casas estavam lá, todas elas – pelo menos achava isso –, entretanto, parecia que alguém havia mexido em sua rua, as casas estava embaralhadas, os portões trocados. Não sabia ao certo. 

Ouviu uma cantiga. Uma mulher estava de cócoras em cima de um telhado, com os braços junto ao corpo, cabeça baixa. Ela emitia um som cadenciado e contínuo com a garganta. Seu corpo pendia para esquerda... direita... esquerda... direita... Embalava-se como um pêndulo a hipnotizar. 

O balançar da mulher acelerou. Uma, três, oito das telhas de barro caíram, estilhaçando-se na calçada. Logo, elas vieram em uma torrente: fileiras inteiras escorregaram, as telhas eram velhas, tortas, sujas. Caiam, caiam. E em meio a essas pancadas se quebrando na calçada, a voz da mulher soava rápida, incompreensível. 

Olhava para Tiago, se ela estava sorrindo não era visível. Ele só conseguiu reparar na pele descorada... nos dedos compridos com garras recurvadas afundando-se nos braços magros.

Parecia que aquela cena duraria para sempre: o frenesi de telhas caindo, a voz ritmada da mulher. Então, ele sentiu-se tonto. Os sons se afastaram. O céu se contorceu. Tudo à volta se tornava abstrato. Absurdo. Abafado. Tiago não mais reconhecia sua vizinhança. Queria ir embora. Tentou agarrar-se em algo. Afundou. A voz da mulher toava em seus ouvidos incessante tal qual as telhas a cair. 

Acordou.

Não abriu os olhos.

Estava consciente, no entanto, não se mexia...

Enxergava apenas o escuro.

O ar de seus pulmões fugia pouco a pouco. Algo pesava em seu peito. A cada respiração menos ar ele consegui puxar. Quarenta e sete quilos o sufocavam. Setenta e nove quilos. O ar escapava mais e mais... 93kg.   

Não conseguia gritar, não conseguia abrir a boca. Os braços não respondiam. Sentiu alguém acariciar seu rosto; inalar o ar que era expulso de seu corpo. Seu cheiro.   

Incapaz. Uma lágrima escorregou da vigília de um dos olhos. E tão depressa Tiago sentiu áspera, seca: uma língua sorver a gota.   

Alívio!

Respirou bruscamente. Desesperado.

Arregalou os olhos. Sentou. A sensação de estar sendo observado era uma certeza ali no escuro. Não se atrevia a levar a mão até o interruptor e acender a luz, porque... e se já tivesse outra mão lá? Permaneceu parado, implorando para o cinza do amanhecer invadir o quarto o quanto antes, pois sabia que mais cedo ou mais tarde iria se render ao sono de novo e a Pesadeira viria olhá-lo dormir, e o resto seria Vazio.


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Esse era o tal trecho (capítulo) do meu livro que achei melhor adaptar em um conto. 

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