Uma Gota de Veneno Serpenteia Pela Pele (1 de 5)

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Ciméria - Antiguidade 

I – No leito

O tempo pesado, frio, úmido a tudo apodrecia. A superfície das coisas guardava uma fina película de água e poeira. Lembranças. O Sol tocava manso o chão de pedra, por entre as colunas deste grande salão. Vazio... Aqui apenas uma cama havia com uma mulher a repousar sobre ela.

A inspiração dificultosa dela aranhava o ar do local. As unhas enormes curvavam-se ante a desistência de mais cuidados. E os dentes faltosos enfileiravam-se ao lado dela como peças de um ábaco. Paciente. Assim, ela assistiu ao passar das coisas, ao enrugar da pele, ao amarelar dos anos.

Já era o bastante e o fim ainda não chegara.

Então, duas mulheres entraram de costas. Irmãs. Os olhos cobertos por véus negros, as formas envoltas em túnicas. Tão leves. Uma das moças carregava uma ânfora, enquanto a outra uma cesta com frutas, ovos e vários pequenos artrópodes. Passos suaves. Sempre de costas.

O cabelo da senhora se moveu, e ela abriu os olhos.

— Como estás se sentindo hoje? — Uma das recém-chegadas perguntou.

— Pés...sima. — A resposta veio da cama como um murmurejar rouquenho.

Sem se tocarem, sem nunca virarem os rostos para a velha senhora, as duas andavam ao redor da cama seguidas por rastros de tecido. Tão suave. Cada gesto era longo e calmo. Dançavam. Assim, deixaram ao lado da cama o que trouxeram, acalentaram a mão fria em bronze da idosa, ajeitaram as cobertas. Sempre de costas.

A Coruja fechou os olhos quando o Cavalo saiu do mar e avançou.

Nos olhos das irmãs, a velha sabia, que medo algum habitava, apesar disso: evitavam qualquer contato. Sob os cuidados das duas ela atravessou os anos. Provinham-na com o que necessitasse. Alimento, companhia, proteção... proteção... apesar de tudo ela ainda incluía essa palavra à lista, mesmo ninguém as incomodando há tempos. Os aventureiros, guerreiros, intrusos, oportunistas apenas pararam de vir. Mas, se fosse preciso ela preencheria os campos ao redor ainda mais com os corpos deles, reforçando o longo caminho de aviso até seu leito.

Aos pés da Coruja ela implorou, e mesmo assim o Cavalo a arrastou.

As serpentes na cabeça da velha estavam inquietas de desejo, provando o ar. As duas jovens moviam-se de um lado a outro lhe entregando aranhas, ovos de aves ou um alimento qualquer para as víboras, antes que estas começassem a mordiscar o rosto da anciã. A senhora por sua vez arrepiava-se ao sentir a comida descer pelo couro cabeludo, pela nuca rumo ao pescoço e por fim ao seu próprio estômago.

Restavam no cesto as frutas e as cascas dos ovos regurgitados pelas cobras. Ela por sua vez recusou-se a comer. Pensativa. Poderia ter saído pelo mundo, levando a destruição. Mas ficou aqui.

— Por quê...? — Refletia consigo: na verdade... que culpa teriam os outros? A mesma minha — sussurrou.

Sempre de costas para a cama, as duas irmãs sem mais o que fazer ali retiraram-se.

E naquele chão, diante da Coruja, ela foi violentada.

— "Que sob seu olhar a carne vire pedra para consumo dos tempos, enquanto a sua definhe a cada dia. Esta é a sua punição". Minha prisão. — relembrou, como relembrava todos os dias essas palavras. Com asco.

Jogada ao chão. Sozinha.

O corpo dele a abrindo. O peso sobre boca para não gritar. Ela mordeu aquelas mãos. Azunhou. Sangrou. Não havia jeito... O rosto dela foi apanhado do chão. Ele queria ver os olhos assustados, queria encontrar neles os de Atenas.

Poseidon sorria.


II - Perseu

Explodia no céu o pôr do Sol quando o guerreiro entrou no covil do monstro.

Espada. Escudo.

Andava devagar, tentando não fazer ruídos. Olhos fixos no chão. Postura defensiva. A criatura dormia logo à sua frente. Tão perto, só mais um pouco.

Naquele momento o herói teve receio de que até o suor a escorrer pela pele produzisse som suficiente para acordar as inúmeras serpentes aninhadas na horrível cabeça da criatura.

As sombras por entre as colunas cresciam, empurrando a última luz da tarde para fora. Tudo era calmo; tudo era silente.

A velha senhora entreabriu os olhos, ouvira algo. Pareceu-lhe um farfalhar de penas. Sonhara? Então, ouviu um pé tocar o chão.

— Eu-uríale? — Perguntou a velha com a voz embargada. — Essteno?! — Apoiando-se na cama para se erguer. — São vocês, minhas irmãs!?

Passos pesados lhe responderam próximos: não!

Ela viu de relance seu próprio reflexo no escudo do guerreiro. Nenhum grito, nenhum grande movimento ela ao menos conseguiu fazer. Uma lâmina passou por seu pescoço. E o corpo caiu... tingindo o mundo.

***

A noite já caíra quando Perseu saiu do templo de Atenas com a cabeça de Medusa nas mãos: seu prêmio. 



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