Foie Gras

69 10 53

Pessoas ocupadas, bandejas, talheres, panelas... A cozinha era tão vasta que com cinco paredes era fácil fazer um castelo ali dentro.

Madame Simone passava de um lado para outro dando ordens e recomendações para os outros empregados e cozinheiros. O cabelo muito bem preso em um coque estava tão repuxado que era necessário muito esforço para imaginá-la piscando. A mão ossuda recriminava o trabalho de todos. A língua ferina provava cada prato.

O cheiro de cebola refogada na manteiga fazia o ar tremer dentro da boca junto do gosto que as maçãs sendo caramelizadas deixavam.

Simone sentou-se do lado de Diego. O rapaz deveria ter uns quatorze anos. Aparência saudável. Bons dentes. Estava amarrado a um canto da cozinha. Pés, mãos.

— Abra a boca.

Diego a olhou como óleo fervente quando se joga água.

— Você que sabe...

Ele abriu.

Simone borrifou algo no fundo da garganta do rapaz. Lidocaína. No mesmo instante, ele sentia a saliva engasgar ao ser engolida, era como se as paredes da garganta caíssem umas contra as outras. Dormentes. Corpos estranhos dentro de si.

Simone bateu dois dedos na dobra do braço dele em busca de um local para atingir uma veia, outras dezenas de furos enfeitavam as costas das mãos, os pulsos etc. A agulha perfurou a pele. E, lentamente, Simone foi apertando a seringa.

Diego sentiu o analgésico sendo empurrado pelas veias, sentiu a cabeça leve, os pensamentos virem tão rápidos que pareciam borrões inexistentes.

A mulher veio com um bocal. Colocou.

Sem conseguir fechar a boca, o rapaz babou.

Depois... veio uma mangueira.

Diego tentou, mas não conseguiu perder a consciência. A mangueira desceu pelo esôfago. Desceu até o estômago. Ele a sentia lá. Em cada respiração o ar dividia espaço com aquilo. Queria vomitar. Não conseguia.

Madame Simone pegou uma bisnaga de duzentos gramas, e foi despejando pela mangueira a gordura líquida que estava lá dentro direto para as entranhas de Diego.

***

Os pedaços do fígado gordo eram grelhados em uma frigideira. Trinta segundos. Grelhar o outro lado. Mais trinta segundos. As mãos despejaram Sauternes sobre o órgão e deixaram o vinho doce reduzir, o líquido evaporava deixando o sabor, os vapores subiam carregando o perfume do prato.

***

Madame Simone empurrava uma cadeira de rodas pela sala de jantar. Sorria. Os cinco convidados se fixaram no senhor de olhar assustado, que ela levava até a mesa.

Na cabeça dele só restavam pequenos tufos, fiapos sobreviventes de cabelo. As orelhas pendiam moles, o nariz caía excessivo sobre a boca. As mãos mal seguravam os talheres. Tremia inteiro como o amarelo a lhe atingir o corpo.

Lambeu os beiços. O prato principal foi posto na frente do senhor, na cabeceira do banquete.

Ele abaixou a vista, seu prato preferido fez crescer um sorriso em seus lábios. Fez o primeiro corte. Tirou o primeiro pedaço.

Estava uma delícia!

Bateu com o talher na mesa. Levantou-se empurrando a cadeira de rodas metros para trás. Os outros pararam de comer. Ele empunhou uma taça. Madame Simone em pé ao lado prontamente a encheu.

— Um brinde. — As palavras saiam dos lábios corados. — A vocês, meus convidados. — Os olhos de novo injetados de sangue pousaram nos quatro adultos e na criança. — E um brinde ao Tempo. — O Papa Figo deu um gole no líquido vermelho escuro em sua taça.

(552 palavras)


- - - - - - - - - -

Caso tenha gostado deixe uma estrela, que ajuda muito. Qualquer erro, crítica, sugestão pode deixar um comentário, responderei a todos. E obrigado pela leitura.   

Carne Morta e Outros Contos Folklóricos de Dark FantasyLeia esta história GRATUITAMENTE!