Loja de Antiguidades & Raridades

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"Confira!". A fachada da loja exibia um cartaz a chamar por pessoas,  como uma ferida no braço de uma criança que é ignorada e pede por atenção. "Olha! Olha!".  Poucas eram as pernas lá fora que paravam.


Sentada, ela apenas observava a sem-graça de quem ia e vinha até não vir mais ninguém. Os braços derrubados ao lado do corpo. O vestido poído. Os pés que não tocavam o chão, tão altos. Ficava ali: sozinha no escuro qual bicho-do-mato.


Os retalhos de luz colidiam com inúmeras coisas até não chegarem ao fundo da loja. Estantes e mais instantes acumulavam-se. Tecidos. Livros. Brinquedos. Porcelanas. Cadeiras. Asneiras. Poeira. Traças. Cupim. Os anos amontoavam-se estanques ali.


Ela passava horas sem mover um fio de expressão, pois todos eles já foram muito bem esgarçados. Dia após dia. O que podia fazer? No mesmo lugar. Na mesma posição. A poeira dócil sobre o corpo. A boca muda, seca. Os cabelos desbotados. Só seus olhos inquietos que não se fechavam... jamais...


Se ela corresse. Se ela gritasse. Se ela esquecesse... as vozes das crianças a brincar... com passos de quem não existe mais. Se ela dormisse. Se ela se arrastasse. Mas ela ficava. Como mais um item exposto, como algo mais à venda. De olhos vidrados na porta.


"E tudo mofou."


O corpo dela guardava-se em despostura numa das mais altas estantes dali. As mãos já não tinham forças. Os pés pareciam soltos. Os olhos: dois pontos negros de costura. A fraqueza a dominava como se um rasgo na barriga rebulisse tudo que a enchia e que antes estava muito bem acomodado.


Escondeu-se mais quando alguém entrou: uma velha senhora de nariz erguido.


Trêmula, a cliente trilhou lenta por cada canto. Andou por toda a loja.


Parou. Levantou o rosto para ela. Tão pequena lá em cima. E mesmo entre tantas coisas, aquela senhora conseguia ver a vida dentro daquela boneca de pano. As duas se reconheceram. Velhas amigas.


Finalmente... Emília...!



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O "e tudo mofou" ou a parte do "se ela gritasse" e o "qual bicho-do-mato" foram retirados do poema E agora José? do Drummond, um dos meus favoritos do autor.  

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