Uma Gota de Veneno Serpenteia pela Pele (2 de 5)

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Brasil, primeira metade do século XXI



III – A cidade inteira...

Os cinco andaram por um bom tempo até restar nada da fenda torta de luz por onde entraram. Espremiam-se por entre as rochas, deixando para trás o som verde do mar, do vento contra as pedras, e das pegadas na areia branca.

— Trinta metros. — A voz da Dra. Moura veio abafada pelos fones de ouvidos.

A luz das lanternas não conseguia avançar, pois a caverna serpenteava, estreitava-se, descia. E o ar empoçava-se por entre aquelas paredes de pedra.

— Temperatura: 26º Celsius. Ar sem contaminações. — A Dra. continuou.

Os equipamentos atrapalhavam a caminhada, mas de que adiantaria chegar até sem eles? Câmeras, cordas, máscaras de oxigênio, grampos para escalada. Levavam o necessário e o possivelmente não necessário.

— Que estranho... — Desta vez foi a voz de Torres que se fez ouvir. O GPS havia marcado a posição do grupo em um ponto da Península Ibérica para em seguida parar de funcionar.

— Também perdemos as comunicações com a superfície. — Viana falou.

O movimento das sombras nos fachos das lanternas tripudiava ao redor berrando em formas confusas. Não havia guia. O caminho se abria a cada passo. Úmido. Viana e Andrade apenas mostravam onde pisar, onde se segurar; eram responsáveis pela segurança do grupo, ela com uma UZI 9mm, enquanto Andrade levava consigo algumas pistolas. E ambos carregavam explosivos para abrir ou fechar caminhos.

Era uma vez, há muito, muito, muito tempo, em um reino muito distante, hoje já enterrado, o povo era próspero e feliz.

Viana mal erguia o pé do chão e o local era ocupado pelo de Torres, se fosse permitido ele correria na frente de todos para os braços da maior descoberta de sua vida, a recompensa de anos de pesquisa, a glória das noites em claro em algum lugar na escuridão à frente.

Resguarda em suor e silêncio, Dra. Martins era a terceira da fila. Moura vinha um pouco atrás parando para espiar os aparelhos em seu pulso:

— 170 metros. 27º Cels. — foi interrompida pela mão de Andrade a lhe empurrar.

— Vamos. Não pare a todo minuto.

Todos estavam em festa, pois se aproximava a época de a Princesa se casar. Dezenas de pretendentes viam e iam à procura do mais breve olhar ou do mais simples aceno dela.

Em um trecho do túnel, o teto podia ser tocado e impassível ele se aproximava mais e mais. O pouco ar existente infiltrava-se pelos pulmões. O lodo nas pedras renegava o toque. Indiferentes, as rochas os fechavam. E o resto era quietude.

Ouro e pedras preciosas irradiavam de qualquer canto da cidade. O comércio atraía milhares de pratas. O reino inteiro crescia e a Princesa a tudo observava. Os pretendentes amontoavam-se à sua porta com as mãos cheias de ofertas. Joias, tecidos, escravos. "Não, não, não...".

— 320 metros e — a dra. Moura puxou o ar — 29º Celsius.

— Não canse ainda, não, doutora. — A voz de Andrade soou ao pé do ouvido do grupo abafada pela máscara de filtragem do ar.

— E a... atmosfera? — Martins perguntou desmanchando-se em suor.

Moura parou para analisar os equipamentos que carregava. Não havia alterações significativas.

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