Uma Gota de Veneno Serpenteia pela Pele (3 de 5)

63 12 64



"quis sinceramente fugir, mas já não pôde. (...), como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante."

A Cartomante – Machado de Assis



IV – A princesa encantada


Ali embaixo pequenos sons se faziam ouvir: o lento gotejar, as rochas acima estalando, os próprios passos.  

— T... juntos. — Falou Viana pelo sistema de comunicação, jogando luz na cara dos outros, contando-os.

Enormes estalactites lançavam-se do teto prestes a mastigar a cidade. Enquanto, no chão, finos veios de água fugiam para profundezas maiores. 

— Estã... ...ente preserv... — Dra. Moura lutava contra o desejo de tocar na pele dos eternos moradores da cidade encantada. Ia à frente. Desbravadora.

Estátuas cobriam os rostos com as mãos, corriam estáticas, espatifadas no chão. Restos. Bocas escancaradas em gritos.   

Os óculos de Martins embaçaram com o calor de 43º Celsius. Seus olhos ardiam com os sais de seu suor. Ela olhou para o visor no pulso. O ar parecia respirável. Então, retirou a máscara e sentiu a umidade quente tocar-lhe no rosto.

— Dra. Martins, o qu... pens... fazendo ? — A voz de Andrade soou alarmante.

— Meus óculos. Estava horrível de enxergar algo. — Seria rápido, não poderia ariscar uma contaminação qualquer, ela sabia disso, ficaria assim só o tempo necessário para limpar as lentes e se enxugar um pouco.

Os outros pararam o que estavam fazendo e voltaram para junto de Martins. As rochas sobre eles estalando. As luzes sobre ela.

Todo cuidado era pouco contra o desconhecido. Manter o grupo junto, protegendo um ao outro, sempre com contato visual. Ninguém queria... O que é isso?! O barulho de uma multidão de patas! Às costas do grupo, uma forma comprida desceu agarrada a uma estalactite.

Dezenas de pernas. Penduradas. Rápidas.

Desceram, agarraram e subiram.

As trevas abraçaram o ser ao som dos gritos da doutora Moura. E o teto estalou ligeiro aos toques das inúmeras patas. Sumiram.

Os berros foram carregados para longe até se calarem.

***

Moura fora jogada no chão. Escuro. Procurou sua lanterna. Talvez tivesse caído. Acendeu outra menor.

A criatura a rodeava. O movimento ondular das dezenas de patas era hipnotizante e aterrador.

— ...utora? Responda!

As vozes dos outros chiaram nos fones. Ela permaneceu em silêncio.

A criatura girava entorno da mulher, formando um círculo com o próprio corpo, emitindo sons estranhos, como de quem engasga:

"que... que... que... que... que..."

Que demônio era esse? Alguma espécie de animal ainda desconhecida? Teria uns quinze metros, ao que parecia. Não existiria alimento suficiente para manter algo daquele tamanho ali embaixo. Alimento... "que... que... o que..."?

Carne Morta e Outros Contos Folklóricos de Dark FantasyLeia esta história GRATUITAMENTE!