Uma Gota de Veneno Serpenteia pela Pele (4 de 5)

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V – A égide


— SUA IMBECIL! O QUE É QUE TU TEM NA CABEÇA? — Andrade empurrou Martins. — BOSTA! Agora aquele bicho deve tá vindo pra cá.

— Não dá pra ir embora sem a Moura...

À luz vermelha do sinalizador que entrava pelos janelões, Viana conseguiu vislumbrar em sua completude o escudo. Um crânio fora fundido ao metal. Humano? A boca aberta expeliam longas presas como as de javali. E vários esqueletos de serpentes ao redor como se esperneassem por se verem alforriadas; no entanto, estavam ali, paradas na morte em uma mordida no ar. Os dentes pontiagudos. Contorcidas, tentando escapar pela beira do escudo, em vão.  

Algo naquela imagem espalhava horror. Talvez fosse devido a seu próprio reflexo naquela cena dantesca. Um horror paralisante. A dor do grito preso no crânio. As serpentes aninhadas, a se morderem, a se afogar no metal do escudo. O que era aquilo? Pelas cavidades dos olhos do crânio bem ao centro vislumbravam o Assombro.

A luz vermelha do sinalizador foi se apagando.      

Enquanto os outros se desentendiam lá fora, Viana cobriu e prendeu o escudo à mochila. Silêncio. Respiração.Ela estava pronta.  

Andrade estava com o olhar perdido pelos cantos. Apontou a arma para Martins.

Um tiro no peito e aquilo estaria resolvido. Mas...

Atirou!

Por um breve instante a escuridão foi iluminada por um anel de fogo a girar quando a bala saiu do cano queimando o ar. Por espasmo do músculo aberto, a doutora Martins puxou a perna e caiu.

Dando um tiro na perna de Martins, Andrade ganharia mais tempo. Melhor assim, ao menos serviria para uma última coisa.

Torres correu e se agachou junto à amiga ferida. Agora havia equipamentos pelo chão, câmeras, medidores etc. Ele esparramara tudo da mochila pelo chão à procura de algo para estancar o sangramento. Amarrou a coxa dela com uma gaze, e outra, e mais outra. Vamos! Logo o monstro os alcançaria. Ela não conseguia se levantar. Torres continuou a pressionar a ferida por um tempo. De pé, de pé! Veias rompidas. O ar tocava frio a carne. Pronto! Se colocaram em pé.

Os outros dois já haviam partido.

— Precisamos sair daqui... Moura já deve estar morta uma hora dessas. — Torres falava pelos olhos cheios d'água. — Você viu o tamanho daquela coisa, e pode não ser só uma. — Vamos...

Abraçados, se apoiando, eles caminharam o mais rápido que conseguiam juntos.

Passavam em meio à multidão de estátuas-corpos de olhos arregalados. Elas encaravam o caminho de onde eles vinham, como se se horrorizassem com o demônio que vinha logo atrás. A morte tocava o chão com suas cem patas. Veloz. Já era possível ouvi-la.

— Aquilo vai pegar a gente. — Martins sussurrou.

Precisavam sair do caminho. Ele a empurrou para uma rua lateral. A cidade ainda não havia sido inteira mapeada, o risco de se perderem era alto. Martins consultava o aparelho em seu pulso de tempos em tempos para encontrar um meio de fugirem daquele escuro labiríntico de ruas.

Uma bala rugiu, e outros tiros a acompanharam em seguida. Era como se uma metralhadora despejasse todo seu desespero do outro lado das casas. Apressaram os passos. Ainda estavam perto.

***

Por mais que atirassem, aquilo não parava. Andrade viu o rosto humano em fúria do demônio quando foi envolvido pelas patas e por todo o resto do corpo da criatura. Viana iluminava a cena com a luz de seus tiros. O gatilho pressionado. Um fluxo contínuo e inútil diante da pele espessa. Movimentos bruscos contra o chão imobilizaram Andrade e começaram a devorá-lo.

Viana correu. Não. Não. Não. Não iria olhar, não poderia perder tempo. Então, as sombras correram à sua frente. Uma explosão! Uma cor laranja atingiu todo o ambiente. As chamas subiram graciosas. A onda de impacto lançou Viana ao chão. Andrade se explodira? Os ouvidos dela zumbiam. Ele quis levar aquela coisa consigo? Dar uma chance maior de fuga? Viana ralara as pernas, e sentia o gosto de sangue. Será que aquilo estava morto? Às suas costas as labaredas como serpentes dançavam: flutuavam e se remexiam. Corra!

Corria.

O túnel logo à frente.

Um grito rouco e agudo rasgou as sombras, vinha da cidade. Era sensível aos ouvidos o ódio. Viana parou assustada e encarou o rumo do som. Era como se aquilo soubesse. Devia ter procurado no que sobrara de Andrade, e agora vinha para devorá-la por ter tocado no escudo. Ela sabia. Viana sabia que iria morrer ali. O monstro se arrastaria pelo túnel atrás dela, iria até a superfície se necessário.

A Encantada investia em sua direção, suas patas ondulavam devassadoras, sua boca escancarava-se em gritos. Não iria permitir. O escudo de Palas Atenas. Ladrões! Ladrões! Dois deles estavam ainda a tentar fugir da cidade. Iam lentos. Cansados, feridos. Iriam conseguir entrar no túnel, mas não iriam longe, nem mesmo aquela outra humana bem mais à frente. Mataria um por um... Era seu escudo; a chave de sua maldição. Seu maior tesouro. 

Martins e Torres seguiam aos tropeços. Os estalos das patas do monstro a bater no chão, inquietos e próximos, marcavam-nos com o gosto do medo. Viana estava imóvel na entrada do túnel. Desistira? Eles passaram por ela, não pararam. Vamos, vamos.

— Exploda! — A voz dos dois nos fones a trouxe de volta. — Exploda o túnel.

O plano B! Viana correu junto. Batiam-se nas pedras, ganhando escoriações nos ombros, pernas. Passaram pelos explosivos que Andrade fixara nas paredes ao chegarem. Afastaram-se o máximo que puderam, o demônio vinha logo em seguida, subindo pelas paredes, pelo teto, em espiral pelo túnel, a morte rompendo de sua boca. O som de cem tambores a arranhar-lhes a sanidade. Então Viana acionou as bombas. O zumbido da explosão cavou no crânio dos três, que se bateram nas paredes e foram arremessados ao chão. Vivos!

A passagem para a Cidade Encantada implodiu, selando-se.

***

Saíram nas areias de Jericoacoara, ao Sol do amanhecer. A missão havia sido cumprida. O acampamento da empresa para a qual trabalhavam estava montado do mesmo jeito de quando entraram na gruta. Enormes tendas os rodeavam em um semicírculo. Todas com um brasão: três serpentes entrelaçadas, duas com cabeça, uma sem. O símbolo d'As Irmãs.


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