Capítulo X

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Como previsto, nós fomos as últimas a chegarem à garagem. Os carros foram entrando um a um, e o Jeep de Sy ficou por último. Eu já estava fechando o portão quando vi um Golf preto estacionando no meio-fio. Meu corpo paralisou, mas, por sorte, minha mente fazia o movimento contrário. Fechei rapidamente o portão e escorreguei para o lado de fora, apoiando-me sobre a porta metálica, uma vez que as pernas não pareciam muito firmes. Enquanto ele se aproximava, eu exibia meu melhor sorriso, ao mesmo tempo em que conjecturava uma dezena de explicações diferentes para estar ali.

Eu não estava fazendo nada de errado, mas, então, por que tinha de me lembrar de respirar de meio em meio minuto? Era só sandboarding com amigos, mas eu meio que tinha dispensado Martin, e se ele visse o quão elaborados eram meus planos para a tarde, provavelmente ficaria chateado. Ai, minhas estrelinhas.

— Oi, linda. – E outro beijo.

Disse com um entusiasmo excessivo:

— Oiê. Que surpresa te ver por aqui. Você não tinha o negócio lá com os vereadores?

— Eu ainda tenho tempo e vim te ver. Eu tinha certeza que estaria aqui, já que não estava na praia.

— Só vim dar uma olhada nas coisas, ver se está tudo certinho. – Outro sorriso amarelo. Senti a palma das minhas mãos suarem atrás de mim contra o metal. Eu ainda não conseguia me mexer.

— As gurias estão ali dentro também? – Ele se aproximou em direção à porta da garagem, obrigando-me a refazer contato com os meus pés e pular na sua frente.

— Sim, elas vão à casa do Rodolfo, e eu também vou, daqui a pouco.

Isso sim conseguiu distraí-lo. Eu mencionei Rodolfo numa tentativa de deixar a mentira mais convincente, já que é um lugar aonde sempre vamos, a propósito, um lugar mais óbvio que a garagem, mas não imaginei que a velha rixa entre os garotos seria tão eficaz em afastá-lo.

— Sam, eu entendo que as gurias da sua família sejam meio avoadas, mas você é diferente e é minha namorada, sabe que eu tenho planos para nós, e preciso que comece a me acompanhar. Apesar de sua família ter uma reputação discutível, o nome Hoffer tem muito poder, e eu preciso de você. Pensei que já tínhamos decidido isso na festa. Eu perdoei o que você fez hoje e nos últimos dias, mas preciso que você volte a se vestir de acordo e a agir da forma correta.

Enquanto eu engasgava nas minhas próprias palavras, ouvi um barulho de algo batendo do outro lado. As sombras embaixo da porta da garagem não deixavam dúvidas dos numerosos ouvintes que estavam nos espreitando. Por mais raiva que eu estivesse sentindo dele naquele momento, eu precisava fazer Martin desaparecer.

— Eu acho que você deve estar atrasado. A gente conversa melhor sobre isso outra hora. – Coloquei minha mão na base de suas costas e, com firmeza, tentei encaminhá-lo de volta ao seu carro, mas ele não se mexia.

— Eu não estou te pedindo nada absurdo, mas mulher de político não pode ficar desfilando de saia de carnaval todos os dias.

O que ele queria dizer com isso? Que eu estava me fantasiando?

— Eu não quero conversar sobre isso agora, Martin. Falamos amanhã, ok?

A paciência se esvaía da minha voz. Eu cerrava os dentes para não começar uma briga, e minha mão o empurrava com mais determinação. Não sei se ele interpretou mal meu toque ou se achou que era um momento romântico o suficiente para um beijo. É difícil saber o que passa pela cabeça dele às vezes. Eu acreditava que aquele beijo no nosso reencontro, no primeiro dia de aula, fora ousado, mas aquele não era nada comparado a como ele me beijava agora, aproveitando-se do deserto das avenidas da cidade nova, descendo sua mão pelas minhas costas em direção ao meu quadril.

Herança de Sombras - Livro 1 - LuxúriaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora