Capítulo XXIII

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A professora do quinto período já estava começando a aula quando entrei e assumi meu lugar na frente de Mô. A minha prima insistia em querer saber onde eu estava, hoje menos por conta de sua ávida curiosidade e mais por sincera preocupação. Eu tentei explicar por gestos que nos falaríamos depois, ela pareceu se conformar e parou de me cutucar.  Talvez Mô tenha interpretado o sorriso no meu rosto como um bom sinal, e ela e Tami se limitaram a me observar a distância.

A maioria dos nossos planos tinha furado, mas tentaríamos manter o último. Antes mesmo de tocar o sinal, saímos da sala, com mochilas a postos e chaves do Mustang em punho. Mô dirigira na vinda, mas eu estava melhor para dirigir na volta, isso se eu não me encontrasse com ele. Era esse o motivo da nossa pressa, evitar um confronto com meu agressor.

Ouvi quando chamaram nossos nomes, mas eu tinha medo de olhar. Apesar de o beijo não sair da minha cabeça, vez ou outra, minha visão ficava cheia de pontos pretos como no momento em que a cabeça bateu contra o vidro pela segunda vez, e isso só me impulsionava a correr mais rápido.

Enquanto as outras ficariam no continente, eu, e consequentemente Mô, tínhamos horário certo para chegar no píer. Eu já tinha ligado o carro quando ele bateu contra a janela do motorista fazendo meu coração saltar para a garganta. Abri os vidros escuros e consegui respirar de novo.

— Qual a pressa? O Azul não vai a lugar algum!

— O Azul não, mas o barco vai! – Mô, metida, respondia por mim.

— Vocês não vão almoçar aqui? Eu pensei... – Disse Benjamin, sem esconder a frustração.

— Sem Azul hoje, forasteiro – disse Mô novamente.

— Elas me deixaram vir à escola hoje, quem sabe almoço amanhã?

Eu disse isso dando-lhe uma piscada numa tentativa de diminuir o franzido de sua testa.

— Mas é injusto! Por que ele não fica preso? Ele é a ameaça!

— Ben, lembre sobre o que a gente conversou? Não é por mim, é por elas. Não dificulte as coisas.

Ele parecia menos disposto a isso a cada segundo, seu cenho se fechou e suas mãos apertavam forte a lataria do Mustang, forte demais, a ponto de que se ele pudesse, seria capaz de entortá-la. Como ele podia ser tão teimoso?

— Carro legal, Sam. Eu não lembro de ter visto este na garagem. É novo?

Claro que os Cabelo e Peixe sempre se interessariam por nossos carros tanto quanto por nós, garotas, em si.

— É muito bonito. Quem que te subornou, Samantha?

Ai. Tui parecia tão pouco receptivo quanto Ben. Eu não tinha pensado até agora como ele reagiria a tudo isso, mas pelo visto não era bem.

— A minha avó...

Eu só consegui dizer isso. Não era justo ele fazer eu me sentir envergonhada por isso. Não podia imaginar o que eu tinha passado.

— Vai ser assim sempre, agora? – Queria saber Ben, ainda rancoroso, sua testa de tão franzida transformou suas sobrancelhas em uma só.

— Pelo menos até ele ir embora...

— Quem vai embora? – Queria saber Peixe, que, junto com Cabelo, estava analisando a traseira do meu carro esse tempo todo.

— Quando?

Isso sim pareceu suavizar os traços de Benjamin.

— Depois do final do mês.

A perspectiva de ele ir embora de Tor realmente me animava, mas teve o efeito contrário em Ben.

Herança de Sombras - Livro 1 - LuxúriaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora