Capítulo XXVII

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Eu não sabia mais o que fazer. Tinha tomado dois bules de café, um banho gelado e consumido todo o pó de guaraná que pude encontrar, mas, mesmo assim, minhas pálpebras pareciam estar ganhando de mim com uma vantagem absurda. Aliado ao sono que me consumia desde que saí da casa do Ben, as lamentações de Luci tornavam impossível qualquer tentativa minha de resistir à cama.

Eu me arrastara para o sofá da sala, numa vã tentativa de a televisão e as meninas me manter acordada. Não eram oito horas da noite, mas me sentia como um verdadeiro zumbi. Percebia que, a cada nova piscada, a próxima se tornava mais longa, e quando me via rumando à inconsciência, eu acordava num pulo.

Na verdade, o que tinha me acordado dessa vez não foi a sensação de despencar, mas um soluço agudo de Luci. As meninas estavam tentando consolá-la, mas ela parecia ser tão teimosa quanto eu. Rodolfo e ela estavam tendo problemas desde o dia anterior, por isso acabaram na casa de Tami naquele dia.

— Ele é um idiota! Por que tinha de falar isso?

— Garotos são assim mesmo, Luci. Eles falam e depois pensam. – Regi tentava acalmar a amiga.

— Mas dizer que não vai me ligar quando estiver na faculdade? Que vai estar muito ocupado com as aulas e conhecendo pessoas novas? Quem diz isso? Se queria uma briga, ele arranjou! – Dizia ela determinada, antes de desmoronar em lágrimas.

— Luci, provavelmente, ele disse isso só porque vai ficar com saudades de você. Todo mundo sabe que ele é louco por você. Talvez ele só não quis admitir que odeia a ideia de ficar longe – disse Babi.

Da mesma forma que Mô tinha vocação para ser carismaticamente intrometida, Babi fazia sua ingenuidade e romantismo transformar qualquer situação numa perfeita comédia romântica.

— Não, Babi, ele é um idiota mesmo. Eu nem sei por que não termino com ele agora mesmo. É óbvio que não vai durar quando ele estiver lá e eu aqui!

E Luci desatava a chorar mais uma vez compulsivamente, enquanto Regi e Mô alisavam seus cabelos e braços. Eu via que as tentativas de acalmá-la não estavam levando-a lugar algum. Alisá-la não a faria sentir melhor, mas sempre havia uma coisa que me ajudava, e eu precisava de outra forma de me manter acordada.

— Luci, o que você quer comer?

— Eu não quero comer nada. Tu achas que tenho condições de colocar alguma coisa para dentro? – Ela dizia com a voz embargada.

— Eu só estou perguntando para você não beber de estômago vazio! – Disse calmamente.

Os rostos das três se acenderam conjuntamente com os últimos soluços de Luci.

— O que vai bem com tequila? – Perguntou ela com a voz rouca.

— Esta é a minha garota!

Descemos as escadas num átimo. Mô cuidou da música, eu e Babi começamos a preparar os nachos e os tacos, enquanto Regi preparava a tequila, já que Sy ainda não tinha aparecido. A Vozinha já sabia do sumiço de Sy e eu não conseguia imaginar o que podia haver de tão interessante para ela arriscar a festa no sábado.

Quando Luci começou a virar uma dose atrás da outra, passei a questionar meu plano. Ela alternava entre choro compulsivo e risadas insanas do Coringa.

— Quando ele estiver na faculdade, eu vou aparecer nas mesmas festas só para ficar com outro cara na frente dele. Quero ver o que ele vai achar disso! – Luci dizia, apontando o dedo na cara de Regi, que de tão trôpega acertou o nariz de Babi ao seu lado.

Herança de Sombras - Livro 1 - LuxúriaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora