Capítulo XXV

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Se no início da semana existia a possibilidade de as meninas acordarem cedo o suficiente para uma chegada à escola em tempo hábil, com uma entrada Hoffer, conforme a semana passava, as chances diminuíam drasticamente, e quarta-feira poderia ser considerado um dia de transição.

Eu já estava conformada com o fato de ter de esperar por quase três horas de escola até poder vê-lo, mas, mesmo assim, isso não me deixava menos frustrada ou rabugenta.

Eu devia estar insuportável para Mô não tentar falar comigo. Tinha trocado farpas com ela mais cedo, quando ela comentava sobre a festa. Eu tinha dito algo como ela ter de trocar o disco de vez em quando, não tão ofensivo a meu ver, mas de acordo com ela, a entonação é que foi desagradável.

Devo admitir que, quando ela reclamou sobre seu novo paquera não ter respondido as mensagens ainda, eu disse, e lamentei, no momento em que abri a boca, que "ela conseguia fazer um cara se mudar de país de tanto que os perseguia".

Quem era eu para dar conselhos? Meu ex-namorado tinha me espancado e o meu atual "alguma coisa" não fazia questão de falar comigo. Eu sabia que meu estado de nervos também não tinha muito a ver com Ben, Mô ou até mesmo Martin.

Eu tivera de novo o pesadelo. Para ser sincera, eles não pararam um dia sequer desde que começaram. A cada dia o tubarão chegava mais perto, só que, na noite anterior, foi a primeira vez que ele tinha me abocanhado.

O pior não foi a visão dele, enterrando suas presas na minha pele, mas a sensação. Eu podia jurar ter sentido a dor aguda de facas ceifando minha carne, esfarelando meus ossos, a dor excruciante pela ausência do membro.

Eu podia até sentir o cheiro de sangue, considerando que tive meu rosto coberto dele enquanto corria para salvar minha própria vida há algumas semanas; posso afirmar, categoricamente, que esse odor seria distinguível a milhas de distância pelo resto dos meus dias.

O sonho fora tão vívido que eu tinha me arranhado no que imagino ter sido uma tentativa de me afastar do animal, e acordei com marcas de unhas nos meus braços no local em que o tubarão supostamente teria me mordido. Ele não saía mais da minha cabeça, e ela latejava a cada vez em que me movia. Os músculos do meu pescoço estavam duros da tensão da noite anterior.

Vozinha foi a primeira a chegar ao meu quarto, mesmo antes de Mô, que mora no quarto ao lado. Mas apenas minha prima conseguiu me fazer parar de gritar, enquanto ninguém mais conseguia. Eu devia ter acordado toda a costa sul pelo meu desespero, Vozinha, assim que possível, aproveitou a primeira oportunidade para me enfiar garganta abaixo mais um de seus chás dessaborosos, fazendo-me desmaiar logo após.

Parecia ridículo, mas só a ideia de Ben já funcionava como um analgésico, a sua presença parecia ser a própria cura para o câncer. Eu estava me viciando nele e temia uma abstinência.

Ele apareceu lindo, alto e loiro na minha frente, assim que coloquei o pé para fora da sala, parecendo sentir tantas saudades quanto eu, ou era isso o que eu preferia imaginar.

Assim que ele me beijou, tudo ganhou nova perspectiva. O sonho parecia uma besteira, a dor não existia mais, o medo de não o ter, por um dia, tornou-se injustificável. Eu daria um jeito, eu iria atrás dele se necessário, tudo por mais um beijo.

— Ganhou mais uma diminuição de pena? – Perguntou ele esperançoso, nós dois ainda abraçados.

— Não...

Eu ia pedir desculpas, mas não era minha culpa. Eu não estava acostumada a ser eficientemente coagida. Ben percorria as linhas do meu rosto com beijos, exceto os meus lábios, fazendo-me perguntas entre uma tortura e outra.

Herança de Sombras - Livro 1 - LuxúriaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora