Capítulo III

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Martin estava com sua mão firme na minha enquanto desfilávamos no pátio da cantina até a mesa ao ar livre em que seus amigos costumam se sentar, justaposta ao balcão, com uma jabuticabeira como telhado.

Logo percebi que os planos dele envolviam a tarde, e pela manhã eu seria apenas seu acessório. Martin e seus amigos conversavam animadamente sobre futebol, e apenas me notaram quando começaram a ranquear novamente as garotas, agora que sofriam mais mudanças da puberdade e do verão.

— Tudo bem, Sam? Estás tão quieta hoje... – Felipe quis ser gentil comigo, pena que Martin não permitia nem isso.

— Ela está bem, Felipe, só levou uma esbarrada no guri novo que deve ter engolido a própria língua.

Eu odiava quando ele falava por mim. Como eu não tinha uma maçã para enganar o estômago, era uma boa desculpa para me afastar deles.

— Eu estou bem, Fe, só com fominha. Já volto.

Exagerei ao esfregar minha barriga num sinal claro de fome. Já tinha me virado e estava na direção da mesa do lado oposto em que estávamos, a da minha família, quando ele me puxou.

— Vai embora sem me dar um beijo?

Suas mãos estavam mais uma vez na minha cintura, me projetando para ele e, com outro beijo invasivo, demarcou seu território para toda a escola ver. Eu não pude me conter e o empurrei um pouco mais forte dessa vez.

— Calma, piá. Eu não vou fugir.

Sem sorrisos fracos ou tentativas de dissimular minha indigestão ao beijo, voltei a caminhar em direção as minhas primas. Antes isso que morder seus lábios como tive de me segurar para não fazer. O que estava acontecendo comigo?

Cheguei quase correndo à mesa mais próxima da entrada principal da escola, separada apenas do gramado da frente por uma sebe verde com flores de verão ainda desabrochadas e vivas. Sentadas ao seu redor estavam as minhas primas e minha irmã, junto com Tamisa e mais o bando de aspirantes que ficavam mosqueando ao redor, prontas para uma eventual convocação que nunca viria. Você nasce Hoffer ou não. Por fim, elas acabavam sentadas nas mesas mais próximas, tentando absorver algo da nossa presença, um assunto para conversar, ou apenas destaque pela proximidade, mas, hoje, as descerebradas exalavam a fragrância da dor de cotovelo pela garota que tinha sido promovida no primeiro dia de aula.

Sentei ao lado de Mô e comecei a mordiscar o seu sanduíche sem nem mesmo pedir. Eu ainda estava transbordando de raiva e nem notei que Sy estava mexendo comigo.

— Hello, o beijo é tão bom que ficou surda? Como conseguiu a alforria?

— Vai à merda, Sy. – Joguei com tanta força o sanduíche de Mô que ele passou no meio das gêmeas, após quicar na mesa e, então, aterrissou no chão.

Isso era atípico de minha parte, mas estava cansada de ter outros me dizendo o que fazer hoje. Levantei-me num ímpeto e comecei a caminhar com as minhas mãos enterradas fundo nos bolsos da minha calça, ao ponto que achei que conseguiria rasgar a costura.

Acabei nas piscinas cobertas, meu plano original. Eu sempre acabava por ali. As piscinas lembravam muito a estufa da vozinha, lá na ilha, com vidros como paredes, exceto na parte dos vestiários. As duas piscinas são de tamanho olímpico, ou tão grande quanto. As árvores que as cercam agora invadem o espaço, tanto pelas janelas como pelo chão, quebrando o piso, transformando o local em uma armadilha mortal para os desprovidos da graça natural de Regi, diga-se de passagem, como eu.

As trepadeiras abraçam as paredes e há folhas e sujeira por todo lado, principalmente na água, que lembrava mais um esgoto. Às vezes, fedia tanto quanto. Não é à toa que ninguém vem aqui. Só eu consigo ver a beleza do descaso misturado à sujeira, o verde das folhagens invadindo o cinza cimento do homem até se fundirem em algo único, ruínas de um passado que encontrou uma forma de perseverar em seu próprio caminho apesar do abandono. Ele simplesmente se recusava a morrer, e eu respeitava isso.

Herança de Sombras - Livro 1 - LuxúriaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora