Capítulo VI

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O resto da noite foi indistinguível. Em certa altura, Tui me encontrou. Imagino que ele tenha vindo me procurar, após algumas fofocas ganharem a velocidade do vento.

Eu fiquei feliz de ter sido ele a me encontrar e não Mô. Se fosse o inverso, ela ficaria me fazendo várias perguntas e outras tantas interpretações de acordo com cada expressão facial e gesto que Martin teria feito, e que, provavelmente, eu não teria percebido. Tui, não. Ficamos sentados olhando o mar, enquanto minha cabeça repousava no seu ombro.

Não me lembro de como cheguei ao barco e nem de ter tomado banho, muito menos da hora em que adormeci. No dia seguinte, amanheci como se tivesse dormido uma vida inteira, meus membros doíam e pesavam toneladas, minha boca estava seca e rouca, meus olhos estavam tão inchados que, mesmo abertos, pareciam fechados. De repente, todos os eventos do dia anterior apareceram pelos meus olhos como se fosse um filme passado em alta velocidade, e agora eu entendia por que me sentia tão mal.

Quanto mais eu pensava sobre os últimos meses, mais eu via que Martin tinha razão. Eu tomara várias decisões que culminaram nesse desfecho. Quanto mais eu refletia sobre isso, menos eu deixava de achar que era a decisão errada, mas a única possível.

A gente tentou manter o que tinha, mas, para isso, precisávamos ser aquelas duas pessoas do início do relacionamento, e elas não existiam mais. Eu odiava a garota que Martin esperava que eu fosse, tanto quanto ele devia odiar as minhas atitudes nos últimos dias.

Eu não tinha voz com ele, o que eu só percebi quando gritei pela primeira vez. Mesmo assim, ele não me ouviu. Há quanto tempo isso vinha acontecendo? Há quanto tempo eu não tinha mais vontade própria? Será que eu ainda conhecia o Martin, ou eu fingia que esse Martin era o meu Martin?

Eu estava triste. O fim é sempre triste. Não tinha dúvidas da minha decisão, que não foi bem minha. Acho que eu já tinha tomado essa decisão há algum tempo, só não tinha coragem de sustentá-la.

Apesar de saber que eu sentiria muitas saudades, e que viveria uma vida completamente nova, em que eu seria apenas a Samantha, eu agora estava pronta para terminar com Martin, pois sabia que, no fundo, eu sobreviveria.

Ao tentar me sentar na cama, senti uma tontura e, rapidamente, voltei a deitar. Talvez eu conseguisse convencer a Vozinha de que eu deveria ficar em casa. Ela sempre é a favor de nós ficarmos na ilha, principalmente se estivéssemos debaixo dos seus olhos no casarão. Eu sei que fugir seria uma covardia, porque eu teria de lidar mais cedo ou mais tarde com o fim do nosso relacionamento. Vê-lo seria difícil, mas me esconder deixaria o dia seguinte mais difícil ainda.

Antes da minha própria crise nervosa, Gabrielle, minha mãe, tinha tido ela mesma uma crise enquanto estávamos no continente, e por esse motivo eu estava acordando na casa branca. Foi quase uma semana na casa amarela, dessa vez, pelo menos.

No casarão, o quarto que eu escolhera, há anos, fica no lado direito da casa, com mobília de um século passado, escuro e pesado, talhado com flores e espirais por todos os lados. Eu mantive a cor branca do quarto, e aproveitando o tema, escolhi lençóis e cortinas da mesma cor, o que parecia diminuir um pouco a história de tudo o que estava ali. Apesar de o quarto ser amplo, os móveis e, principalmente, a cama gigante de dossel enchem a visão ao entrar nele.

Eu escolhi esse quarto por um único motivo: divide o banheiro com o quarto adjacente, que era nada mais nada menos que o de Mô. O banheiro, claramente, mostra os sinais de um dia ter sido um quarto, pois, se as tábuas de madeira no chão não o entregassem, bastava perceber seu tamanho: pequeno comparado aos outros quartos, mas grande o suficiente para colocar uma banheira ao estilo belle époque no centro, com os pés dourados em garra de falcão, deixando espaço para um chuveiro para três ou quatro pessoas, na parede dos fundos, e uma bancada suficiente para todas nós nos maquiarmos de uma só vez, caso fosse necessário.

Herança de Sombras - Livro 1 - LuxúriaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora