Capítulo VII

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Parecia que tinha fechado meus olhos por um minuto e, de repente, eu os abria para um sol luminoso que atravessava minhas cortinas, translúcidas de tão brancas. A brisa empurrava-as até o teto, e mal o tecido caía sobre o peitoril da janela, era lançado mais uma vez. Da minha cabeça, à beira do colchão – eu tinha acordado atravessada na cama de novo, outro sonho muito real e colorido que me escapou assim que acordei – pendia um cacho desgarrado, balançando conforme essa mesma brisa que brincava com a cortina.

Espreguicei-me sem vontade, e no caminho para o banheiro, ouvi uma leve batida na porta.

— Será que podíamos conversar?

Ao ouvir sua voz, quase errei a entrada e, por um triz, não dei com a cara na parede.

— Sim. – Disse ressabiada. Conversas com minha mãe tinham um talento nato para acabar mal.

— Sinto muito que você e Martin tenham terminado.

Alguém devia ter contado a ela, eu só podia supor ser a Vozinha, que se infiltrara na nossa festinha da noite anterior para roubar nossas margueritas.

— Obrigada pelo sentimento – disse muito rápido, sem interromper minha higiene dental.

— Não há chance de reconciliação?

Tive de fazer muita força para não bufar ou rolar os olhos. Apesar de o Martin estar na lista "A" da minha mãe há muito tempo, ela podia tentar ser um pouco mais imparcial, já que ele tinha difamado nossa família. Tá bom, não foi ele que difamou, foram os amigos idiotas dele que o fizeram, mas ele não fez nada. Pelo menos, que eu saiba, ele não nos defendeu.

Na verdade, a minha mãe estava tentando ser legal. Ela não tinha como saber que meu relacionamento com Martin estava tão ruim, que nós dois havíamos mudado, pois isso implicaria em nós duas conversarmos e isso quase não acontecia mais.

Eu perdera a paciência com minha mãe há muito tempo. Ela esqueceu que tinha filhas no dia em que meu pai morreu, e se não fosse a Vozinha, minhas primas e tias, eu e a Babi estaríamos perdidas. Ela passava dias trancada em seu quarto, chorando com a foto dele, abraçada com suas camisas velhas. Quando não estava nesse estado deplorável, ela parecia um fantasma pela ilha, andando quase sem fazer barulho, sendo responsável pelos maiores sustos da minha vida. Eu podia me considerar privilegiada, pois muitas pessoas queriam ter uma casa assombrada e uma mãe omissa.

O único sinal de vida brotou de seus olhos quando ela descobriu meu namoro prematuro com Martin. O sinal de vida foram os fogos do inferno da sua ira, que assim como vieram, foram embora – após um dos chás da Vozinha, que a fez dormir três dias – e ela voltou ao seu estado de inércia habitual.

Ela me parecia um barco à deriva no mar, movimentando-se conforme seu balanço, sem resistência alguma, exceto quando damos a nos engalfinhar. Eu sou a única capaz de causar essa reação nela e, muitas vezes, eu nem sei como consigo essa façanha. Pode ser impressão minha, mas, vez ou outra, eu posso jurar que ela me olha com um rancor, como se ela me odiasse com todas as suas forças.

A implicância com Martin acabou há, aproximadamente, um ano. De repente, um dia ela acordou e decidiu que gostava dele, deu a convidá-lo e a sua família para jantares na ilha, o que é algo muito raro, principalmente sendo minha mãe a anfitriã.

Voltando ao presente, minha mãe continuava parada na soleira da porta do meu banheiro. Sua expressão devia querer transmitir gentileza, mas os olhos sempre tinham aquela tristeza palpável, cinza, e caídos de tanto chorar, mais do que pela velhice, porque ela é jovem e, apesar de todo seu desleixo, continua linda.

Seu perfil lembra muito a Regi, e há quem diga que Regi é a sósia dela, quando, no alto da sua juventude. Não que eu possa saber. Hoje, seus lábios, de tão finos, viraram um risco, as maçãs do rosto marcadas pelos ossos proeminentes. Seus cabelos loiros arruivados não têm mais o mesmo vigor, são quebradiços pelos longos jejuns, pois ela, às vezes, se esquece de comer. Por sinal, ela estava ainda mais magra do que dois dias atrás.

Herança de Sombras - Livro 1 - LuxúriaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora