Capítulo 6 // 6ª Carta

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Era quase fim do mês, por isso, o calor começava a aparecer em alguns dias da semana. A meteorologia marcava que teríamos uma semana atípica de calor. Na creche, as crianças teimam em querer sair mais cedo para o jardim, onde podem correr e se sujar sem levar bronca de nós, monitoras. Para nós, é bem mais trabalhoso, pois temos de sempre correr atrás deles com seus gorros e cachecóis, nos certificando de que não irão pegar uma gripe e deixar de vir, deixando seus pais bravos por não fazermos o que somos pagos para fazer. Prometi à Blake que logo depois do expediente iria com ela comprar nossos celulares. Depois da confraternização, alguns de nós passamos a nos encontrarmos com mais frequência, como eu, Blake e Lotie. Lotie vive no celular e diz ser um objeto muito eficiente, que nos ajuda não somente a nos comunicar, como nos auxilia na hora do desespero e guarda eventos e deveres que não devemos nos esquecer. Eu e Blake automaticamente ficamos animadas em possuirmos um e resolvermos comprarmos juntas, para não corrermos o risco de vermos que o aparelho da outra é melhor e nos arrependermos de termos gasto dinheiro com algo inferior.
Logo que saí, peguei o ônibus da linha 4 em direção ao centro. Não era tão longe, mas era o caminho oposto de casa. A loja era localizada no calçadão, local bastante cheio na época do dia das mães. Blake e eu nos encontramos lá, onde passamos uma hora inteira conversando com a vendedora para nos certificar de que nossa compra seria um sucesso. Não foi barato, achei que eles cobram muito caro para algo tão pequeno, mas se Lotie, que é abarrotada de coisas disse que é eficiente, não há como negar; além do mais, meus pais já estavam reclamando que eu deveria comprar um, pois eles ficam bastante preocupados quando volto mais tarde para casa e não os aviso. 
Logo depois que saímos da loja de telefonia, trocamos nossos números e Blake disse que teria de voltar para a casa, pois havia discutido com os pais na noite anterior e eles obrigaram-na a estar sempre antes das nove em seu quarto. Entretanto, antes mesmo dela pensar em me dar um abraço de despedida, deu um pulo repentino, me fazendo tomar um grande susto. Arregalei os olhos ao ver o relógio dela vibrando em seu pulso. Então era daquela maneira que acontecia. Olhei para os lados, desesperada, à procura do destinado dela, mas ela foi mais rápida. Na verdade, com um simples virar de cabeça, ela pode enxerga-lo parado do outro lado da rua com o pulso levantado, o relógio vibrando em seu pulso à altura de seu rosto, e com a outra mão, o celular próximo à orelha, mas não dizia nada, de modo que deve ter tomado um susto tanto quanto ela. 
- Havia me esquecido que era hoje... – foi o que ela disse, um tanto ausente. Cheia de emoção, fiquei observando os dois se entreolharem boquiabertos, sem saber o que fazer. Dei um empurrãozinho em Blake, que me olhou com seus olhos castanhos clareados e brilhantes. Sem nem precisar dar um passo, vi o homem, do outro lado da rua tomar a iniciativa. 
Não fui rápida o suficiente para gritar a ele que o semáforo ainda não havia fechado. Não pudemos evitar que ele fosse atropelado por uma carreta.

“Querido Amor,

Onde você está agora? Está sentindo minha agonia? Peço desculpas por não escrever esta carta à mão. Comprei um celular. Lotie, minha amiga, disse que é um aparelho bastante eficiente e nunca pensei que iria usá-lo pela primeira vez em um hospital, enquanto minha outra melhor amiga, Blake, está adormecida em meu colo. 
Amor, eu estou em choque. Em choque.
 
Hoje era o prazo final de Blake. Eu estava com ela. Estava sendo a cena mais romântica que havia visto em minha vida, mas... Não sei por onde começar. Talvez pelo começo, preciso respirar fundo, meus dedos tremem enquanto digito. Mal posso pensar se você conseguiria entender meus garranchos se decidisse escrever à mão.
 
Eu estava com Blake no centro, nós combinamos de comprar juntas nossos aparelhos celulares, depois de tanto Lotie fazer propaganda e nos pedir para termos um nosso. Blake está de castigo por ter tido uma discussão com os pais dela; por causa disso, ela deveria estar em sua casa até às nove da noite. No entanto, quando estávamos nos despedindo, o relógio dela começou a vibrar. Imediatamente procurei pelo destinado dela, mas parece que o sexto sentido de destinada dela a fez olhar diretamente para o lado correto. Quando vi, ela e Victor, o destinado, estavam trocando olhares. O problema é que havia uma imensa avenida entre os dois e o semáforo estava fechado. Victor, provavelmente com a surpresa, não se lembrou deste detalhe e começou a caminhar em direção à Lotie. Logo que pôs seu segundo pé na rua, uma carreta em alta velocidade o pegou. Foi horrível.
 
As pessoas ligavam para ambulância e o trânsito começou a engarrafar. Policiais se aproximaram, pedindo para as pessoas se afastarem e Blake tentava chegar até Victor. Quando conseguimos chegar até ele, pudemos ver uma poça de sangue em torno de sua cabeça e o rosto desacordado. Entramos em desespero juntas, era tanto sangue, não podíamos fazer absolutamente nada e os policiais não deixavam ninguém tocar nele. Eu, sem controlar minhas ações, gritei que ele era o destinado de Blake. Foi quando as pessoas pararam de falar ou até respirar para ver o relógio vibrando no pulso de Victor e Blake. Imediatamente pessoas começaram a chorar, gritar por ajuda, ligar ainda mais para ambulâncias. Os policiais permitiram Blake e eu nos aproximarmos de Victor; a vi se ajoelhar ao seu lado com lágrimas nos olhos. Eu estava com lágrimas nos olhos, quem iria imaginar que ao encontrar o seu destinado, ele poderia sofrer um acidente desse.
 
A ambulância chegou minutos depois, os paramédicos prestaram o devido socorro antes de arrastá-lo para dentro do veículo. Não permitiram que outra pessoa senão Blake entrasse, mas como ela estava em choque e precisava tanto de atendimento quanto qualquer outra pessoa, a multidão obrigou os paramédicos e os policiais a permitirem minha ida junto com eles.
 
Na carteira de Victor havia sua identidade. Ele tem trinta e dois com aparência de vinte e seis. Enxerga bem, mas precisa de óculos para leitura, pois o mesmo estava quebrado dentro do bolso de seu casaco.
 
Quando o relógio bateu às nove da noite, os pais de Blake e de Victor chegaram, tão abalados quanto a própria Blake. Observando, pude perceber que não somente Blake e Victor, mas os pais dos dois rapidamente se deram bem, sendo claro que eles eram destinados um para o outro. Meu pai, a meu pedido, veio correndo para ajudar no atendimento e na provável operação que Victor estaria sujeito. Ficamos três horas e meia aguardando um posicionamento, mas foi somente às duas da manhã quando meu pai saiu da sala de emergência. Assim que o vi retirar as luvas de borracha, pude ver em sua expressão que a notícia não seria boa. E não foi. Papai falou que Victor sofreu um impacto muito forte na cabeça tanto na batida, quanto quando caiu no chão. O crânio não foi proteção suficiente para o cérebro.
 
Amor. Ao ouvir meu pai anunciar o óbito de Victor, não pude acreditar. Não sabia como ser um ombro forte para Blake. Como me colocar no lugar dela e pensar em sua morte, Amor? Só de pensar, minhas mãos tremem mais do que qualquer pessoa no frio. Blake aguentou o choro até se despedir dos pais de Victor. Quando os pais dela queriam leva-la para casa, disse que queria ficar lá para poder vê-lo uma última vez antes do caixão ser fechado e enviado para o crematório. Pediu para eu ficar ao seu lado. Assim que eles viraram o corredor, Blake desabou. Chorou por vários minutos, talvez uma hora inteira. Não conseguia dizer nada, então tudo o que pude fazer foi abraça-la e mostrar que estava ali para apoiá-la.
 
Amor, não consegui dormir. Fiquei acordada, vi Blake adormecer e pensei em como seria sua vida a partir daquele momento. Era para ela estar feliz com Victor, mas a situação era completamente reversa. Quando eram cinco e meia, seis horas, não me lembro muito bem, recebemos a visita de uma vidente. Eu não pude enxergar seu rosto, pois usava uma capa comprida e roxa, com uma fita de cetim grossa em tom perolado amarrado à cintura. As mãos cobertas com luvas no mesmo tom da fita e uma máscara veneziana de rosto inteiro. Agachou em minha frente e botou a mão na cabeça de Blake. Amor, não consegui evitar perguntar o que aconteceria com ela naquele momento.
 
Ela me respondeu que Blake foi uma menina de muita sorte em um período da vida, mas que, como todo ser humano, precisa cair para voltar a si. Blake nunca foi uma pessoa que acreditou no amor à primeira vista; sempre brincou com a mina cara, porque fui uma menina obsessa pelo prazo e meu destinado. Quando recebeu seu relógio, não deu importância nenhuma, por isso ficou bastante surpresa quando ele vibrou sem ela se lembrar da data e mais ainda quando sentiu o que estava sentindo ao ver Victor do outro lado da avenida. Estava extremamente feliz por ela estar finalmente sentindo tudo aquilo que eu queria que ela sentisse para que pudesse me entender. Perguntei à vidente se Blake receberia um novo prazo, devido à fatalidade com Victor, mas ela disse que é muito difícil alguém receber uma segunda chance.
 
Perguntei, então, o que ela estava fazendo ali. Se não viera dar um novo prazo para Blake, qual a razão de estar ali? Me respondeu que veio rezar por ela, pois assim que acordasse, tentaria esquecer os sentimentos de modo a tentar poupar a si mesma da dor, mas ela precisava sentir aquela dor. Blake precisava sentir a perda de Victor.
 
Agora estou aqui, aguardando Blake acordar para fazer o que a vidente havia mencionado e, por mais que doa em mim, devo fazê-la sentir a perda do amor de sua vida. Amor, torça por mim, pois não sei se sou uma amiga tão boa para querer vê-la sofrer assim em minha frente.
 
Você ficou sabendo da notícia? Você se lembra dela? Eu espero que quando nos conhecermos, Blake esteja feliz com sua vida.
 
Amor, se cuide. Não deixe se distrair por nada e tenha certeza de que está em segurança. Não permita se machucar até nos encontrarmos e eu possa cuidar de você. Fique seguro, fique bem.

Com amor,

Alyna.”

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