Capítulo 3 // 3ª Carta

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29 de Fevereiro. Um dia atípico. Quantas vezes na vida teremos o dia 29 no mês de Fevereiro? Quase nenhum. Por esta razão, todo dia 29, na família da minha mãe, temos um evento familiar, um jantar, onde conversamos, rimos e colocamos o assunto em dia. Meus primos mais velhos, filhos de tia Sami e tio Jack vêm com suas esposas para se unir a nós. Este ano o jantar seria na casa de tia Sami.
Como sempre, eu e meus pais chegávamos mais cedo para ajudarmos tia Sami e tio Jack a arrumar a mesa e preparar a comida. Tia Sami é extremamente desastrada com culinária, mas era ótima em organização. Tio Jack era o contrário, o que causava a maioria das discussões entre os dois. Contudo, antes mesmo de entrarmos na casa deles, ouvimos a gritaria acontecendo. Era Brooke e Kevin, meus primos mais velhos discutindo. Tia Sami e tio Jack estavam extremamente sem graças por estarmos presenciando aquela cena, mas os dois não pareciam se importar em serem a atração da noite. Por vários minutos a discussão aconteceu, até Brooke se trancar no banheiro de hóspedes e Kevin ir para seu antigo quarto.

- Deixe-os, querida. – ouvi-a dizer para mim, quando fiz menção de conversar com Brooke. – É o melhor para eles no momento.

De fato, deixá-los em seus próprios cantos os fariam pensar melhor sobre a situação em que se colocaram. Contudo, até a hora do jantar, mesmo depois de Jake e Max chegarem com Nicole e Barbara, respectivamente esposa e namorada temporária – Max ainda não encontrou sua destinada, faltam alguns cinco ou seis anos -, os dois não vieram comer. Foi somente na sobremesa que tia Sami pediu para eu ir chamar Brooke, enquanto ela ia até o segundo andar conversar com Kevin.

“Olá Amor,

Onde você está agora? O que está fazendo? Espero que esteja dormindo; para um bom dia de trabalho, é necessária uma boa noite de sono. Hoje, ou melhor, ontem foi dia 29 e em nossa família, todos os dias 29 de Fevereiro nos reunimos para conversarmos e comemorarmos uma data bastante especial, pois não é frequente. Comemos bastante, sempre há muita comida, tio Jack, marido da minha tia Sami, que já mencionei na carta anterior, gosta de cozinhar e sempre se dispõe a preparar nossa refeição, deixando a sobremesa por conta da minha família. Este ano eu fiz um merengue. Aproveitei que os morangos estão vermelhos e suculentos e que encontrei os suspiros caseiros preferidos de Kevin, meu primo mais velho e preparei o que ele intitulou hoje de “sua sobremesa favorita”. Admito ter ficado muito feliz, pois Kevin sempre foi como meu irmão mais velho. Tudo o que ele diz para mim, desde pequena ouço como se fosse a palavra de Deus. 

Eu tenho três primos por parte de mãe – na verdade, só os tenho de primos, porque meu pai é filho único. Kevin é o mais velho. Ele já tem 32, encontrou com Brooke, sua esposa, há sete anos. Ela tem 32 também. Um dos namorados de Cyn um dia me disse que é bem difícil manter uma conversa com Kevin, porque ele é muito inteligente e sabe muito sobre tudo. Ele é advogado e ultimamente tem estado bastante cansado por causa dos vários processos que caíram na mesma época. Brooke é estilista; ela gosta de me dar várias roupas, então se eu não te fizer passar vergonha na rua por ser brega, agradeça a ela depois. Brooke entende que Kevin é bastante intelectual, a relação dos dois é boa porque ambos vivem para o trabalho. Eles ainda não têm filhos, o que tio Jack diz ser uma benção, senão sobraria para ele e tia Sami cuidarem, de tanto que Kev e Brooke trabalham. Jake é o filho do meio, dois anos mais novo que Kevin; ele é veterinário. Desde pequeno, sempre gostou de animais esquisitos, como lagartos, cobras e insetos asquerosos. Eu não sei de onde ele tira clientes com bichos de estimação assim, mas existem vários deles. Encontrou com Nicole há três anos; ela é mais velha que ele, tem 34, mas os dois se dão muito bem. Discutem aqui e ali, porque ela era filha única e seus pais já faleceram, então sempre foi uma pessoa cheia de mimos e atenção; Nicole não trabalha, mas tia Sami está a colocando para ajuda-la em sua farmácia. Eles se casaram faz um ano e alguns poucos meses, mas Nick já está grávida de cinco meses; a barriga está grande para o tempo de gestação, então tia Sami acha que são gêmeos. Nicole tem medo de cortes, então fica desesperada só de pensar no parto. 
Por último vem Max. Ele é um ano mais novo que a Cyn, mas age sempre como se fosse o mais velho. Os dois sempre foram da mesma turma, porque Cyn, por fazer aniversário no final do ano como eu, sempre esteve atrasada na escola. Os dois sempre foram cúmplices um do outro nas fugidas para as festas da faculdade e ninguém estranharia se um fosse o destinado do outro, apesar de ser bastante esquisito. Quando Max fez vinte anos e recebeu o relógio dele, marcou nove anos, como Jake; imagine a reação de todos quando, um ano depois, Cyn chegou com seu relógio marcando oito anos. Tio Jake e papai começaram a brincar falando que os dois eram destinados; isso pareceu aborrecê-los bastante, pois os dois começaram a sair com outras pessoas desesperadamente. Cyn agora está solteira, porque ninguém aguenta namorar uma caxias que só quer saber de suas pesquisas; já Max namora Barbara, uma temporária. Eles acham que serão destinados um ao outro, mas todos nós sabemos que isso nunca acontece com ninguém. Barbara até começou a planejar o casamento, porque o relógio dela marcaram seis anos. Sendo 2 anos mais nova que Cyn, pode ser que os dois encontrem seus destinados em um encontro que tiverem. Até imagino Barbara surtando ao ver Max com sua verdadeira destinada... Tenho dó dela, porque Max se desapega das pessoas com facilidade. Ele é arquiteto, trabalha em um escritório – na verdade, a dona do escritório é uma das ex-sogras dele que não quer demiti-lo porque todos os clientes o amam. Barbara e a ex dele querem morrer quando se encontram. Max é hiperativo; papai identificou os sintomas e falou para tio Jack observá-lo quando ele ainda era criança. Isso foi um grande problema para a família, porque tio Jack é preguiçoso e tia Sami sempre foi muito ocupada com a farmácia.

De qualquer maneira, a festa deste ano foi bem diferente dos outros. Kevin e Brooke estavam discutindo quando nós chegamos e não me pareceu que era uma briga qualquer de casal. Brooke e Kevin vivem em ambientes diferentes; ela trabalha com a mídia, precisa estar nas revistas e catálogos de moda para que tenha sucesso em sua carreira. Já Kevin odeia estar em frente às câmeras; somente encara o tribunal e não suporta festas apenas para se aparecer. Pelo que entendi, Kevin não queria ir à abertura da Glass, aquela loja da filha do prefeito. Brooke precisa estar lá, mas seria estranho comparecer sem seu marido; os dois estavam discutindo porque Brooke dizia que Kevin não entendia sua profissão, enquanto ela tinha que se acostumar em tê-lo enfurnado dentro de seu escritório, ou encontrando com seus clientes nos finais de semana, dias que combinaram antes de se casarem em destinar ao outro. No fim, cada um foi para um canto da casa e não tivemos um jantar tão feliz quanto deveria ser. Max tentou fazer algumas piadas, mas mamãe estava estressada em ver Kev e Brooke brigados e com respeito à ela, minha família e tio Jack não fazíamos nenhum comentário. 
Foi perto da sobremesa que tia Sami pediu para eu ir falar com Brooke, que estava chorando no banheiro do primeiro andar da casa. Amor, ela estava mesmo muito triste. Vê-la daquela maneira me fez entender que às vezes nossos destinados pode nos trazer tristezas, não somente felicidade e amor. Enquanto fiquei sentada no canto do banheiro, esperando ela dizer alguma coisa ou se mexer para ir até à mesa comigo aproveitar pelo menos o doce que eu havia feito, pensei se um dia eu e você iremos estar nessa posição. Pelo que ela me disse, todo casal tem uma época de intrigas, mas isso não quer dizer que irão se amar menos. Não entendo como podem brigar e não quererem se deixar. Brooke parecia tão infeliz; sequer parecia que amava Kevin.

Amor, você entenderia os meus defeitos? Procuraria entender? 
Você discute com facilidade? Nos meus momentos de estresse, virá me alegrar? Ou se precisar de você em algum lugar, você comparecerá?
 
Não sei o que você faz, mas seja o que for, procurarei entender e estar sempre ao seu lado, dando o devido suporte e celebrando com você. É importante termos sempre o apoio de quem mais amamos para completar nossa felicidade.

Espero que esteja não tenha pesadelos essa noite. Estou aqui prezando pela tranquilidade para que você possa ter um amanhã muito prazeroso.

Com amor,

Alyna.”

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