CONFISSÃO #1: SEMPRE TIVE MEDO DO HIV

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PARTE 1 - 1996

Meu nome é Leonardo, vocês podem me chamar de Léo. Eu sou um homem homossexual dos anos '80... Nascido em 1982. Não acompanhei com real noção a peste na comunidade gay com o surgimento do HIV/AIDS... Porém, como adolescente dos anos '90, presenciei a morte de ídolos e celebridades em decorrência do HIV/AIDS.

Pouco se sabia realmente sobre o vírus. Sabíamos que era um vírus fatal, que se espalhava principalmente com sexo gay desprotegido e compartilhamento de seringas. Nas aulas de educação sexual pouco se falava além do muito básico. Eu tinha medo, confesso. No decorrer da minha vida eu sempre pensei que o maior medo de um homem gay era ser contaminado com HIV, mas todos sabíamos que as chances disso acontecer eram grandíssimas. Sabe, é o tipo de sensação como: sabemos que vamos morrer um dia, só não sabemos quando.

Isso ficou muito claro quando olhei um filme muito significativo sobre esse tema em 1996.... Inclusive um dos primeiros com temática LGBT que vi na vida.

"Filadélfia" veio pra mim logo após as mortes de Cazuza, Freddie Mercury e Renato Russo. A sensação de tristeza e medo era inevitável. Sabemos que muitas vezes a arte imita a vida, ou vice-versa.

PARTE 2 - O SURTO

Início de 2013, eu há pouco tinha completado 31 anos. Tinha acabado de modelar para umas fotos de um trabalho publicitário para uma empresa local da minha cidade. No mesmo dia aproveitei para fazer um book fotográfico novo. Para isso, precisei me depilar. Como não consigo me adaptar com depilação em cera, usei a gilete mesmo. Afinal, era só para algumas fotos.

Eu nem podia imaginar que uma fotógrafa, depois de ver o resultado dos dois trabalhos, logo no outro dia pediria para eu posar para suas lentes. Porém, teria que ser no outro dia. Logo, dois dias após as primeiras fotos. Como meus pelos estavam começando a crescer, eu decidi depilar novamente com a gilete.... O que me rendeu pequenas feridas na pele.

Algumas fotos foram feitas dentro do rio da minha cidade. Pronto: pouco tempo depois fui invadido por um surto de furúnculos pelo meu corpo. Ao todo, no decorrer do ano, foram onze. Os dois primeiros saíram um no meu dedo indicador da mão direita e o outro no braço esquerdo, perto da axila.

Quando eu estava já perto do nono furúnculo, decidi fazer uma bateria de exames de sangue. Algo estava errado. Fiz o hemograma completo em uma clínica particular. Quando saí de lá e cheguei em casa, pensei: "vou pedir para acrescentar HIV no exame". Então liguei para o laboratório, perguntei se não tinha problema e se o sangue era suficiente. Como a atendente disse que era, pedi a inclusão do exame de HIV.

PARTE 3 - REAGENTE

Fiz os exames no dia 16 de setembro de 2013. Pela manhã. No mesmo dia, pelas 18h o resultado deveria estar em minhas mãos. Foi então que lá pelas 16h a atendente da clínica me liga com uma desculpa um pouco estranha: "senhor, gostaria de avisar que hoje seus exames estão prontos, apenas o de HIV não aprontou e tivemos que enviar para outra cidade, mas não se preocupe, é apenas um procedimento padrão".

Posso dizer? Neste momento pensei: "me fodi".

Logo após pegar meu hemograma, sem o resultado do HIV, eu percebi que tudo estava perfeito, com exceção dos meus linfócitos, que estavam alterados. Juntando o resultado do hemograma mais o fato do HIV que é um teste rápido não vir junto, eu já estava me preparando para um resultado que poderia mudar minha vida. Segundo a atendente, o resultado do meu exame de HIV deveria vir dia 18 de setembro, mas para minha infelicidade e aflição, ele chegou apenas dia 25 de setembro, uma semana e meia depois.

No dia 25, liguei cedo da manhã para a clínica e pedi: "por favor, eu preciso saber desse resultado, já estou ficando louco com tanta demora, eu sei que podem mandar por e-mail exames hoje em dia, eu vou na clínica, pago o exame de HIV e recebo por mail, não pode ser?"

Durante a tarde recebi um telefonema: "senhor, estamos com seu resultado em mãos". Fui correndo para a clínica, que fica uma quadra da minha casa, para retirar o exame. Paguei e fiquei com o envelope fechado até sair do laboratório. Fui escutando nos fones de ouvido "Roar" da cantora Katy Perry, que tem uma mensagem de luta e força, e quando cheguei na calçada abri o envelope: "reagente".

HIV/AIDS - Confissões de um soropositivoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora