CONFISSÃO #7: O HIV ME MOSTROU MAIS DO QUE EU PODERIA IMAGINAR

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PARTE 19 - VAI ROLAR A FESTA

Bom, eu não sei como será recebido esse texto agora, porém fez parte do meu tratamento e envolve outras pessoas, obviamente todo mundo vai identificar quem são, mas não darei nomes aos bois.

Pois bem, em 2013 teve a 4ª edição de uma festa muito movimentada aqui da cidade, o aniversário de alguém muito conhecido. Durante os prévios três anos, eu fui um dos organizadores do evento e fiz a arte de todo material gráfico. Em tempo, na verdade eu fazia toda arte para ele, mesmo que não fosse para a festa. Como era um amigo muito querido, então eu fazia por trocas de favores e eventualmente ele me pagava. Eu nunca cobrei, mas ele me pagava, por consideração. Nessa mesma época eu também estava saindo de um grupo de dança, do qual fiz parte.

Quando descobri que estava com HIV, as coisas não estavam claras, meu futuro incerto e eu tomei uma decisão: sair do grupo e parar de fazer coisas que me desgastavam que não eram realmente meu trabalho. Quem me conhece sabe da minha paixão pela educação física, porém, me sentia obrigado a trabalhar com outras atividades no meu horário de descanso. Além disso, eu estava com mil coisas na cabeça e não estava com criatividade disponível para trabalhos que precisavam dela. Eu inventei uma desculpa, disse que estava com síndrome do pânico. A minha professora de ballet compreendeu e me ofereceu ajuda. Eu recusei é claro, já que na realidade era mentira. O meu amigo por outro lado não compreendeu muito.

Odia da festa já estava por chegar e eu já tinha dito não mais de mil vezes nãosomente para fazer trabalhos, mas como participar da organização. Eu tambémtinha dito que possivelmente não iria na festa. Se coloquem no meu lugar: vocêdescobre que tem HIV, está fazendo inúmeras baterias de exames, está prestes averificar seu CD4 e Carga Viral... por mais que eu não estivesse depressivo, eunão estava em clima de festa. Não tinha como, era muito recente.L

PARTE 20 - ACONTECE

Chegou o dia de fazer meu exame de CD4 e Carga Viral. Esses exames acontecem aqui sempre nas quintas, pela manhã. É feita uma coleta no Posto de Saúde Central e o material coletado é enviado para Santa Maria - RS. Demora aproximadamente 20 dias até sair o resultado. Como eu dava aula de hidroginástica logo pela manhã, às 8h e outra às 9h, eu teria que ver alguém que pudesse me substituir. Consegui um colega e paguei para ele para dar a minha primeira aula.

Dias antes, no Posto de Saúde, a assistente social me avisou que no meu caso, se eu não me importasse, eu poderia fazer a coleta em um laboratório particular e levar o sangue coletado até o Posto. Mas tem ser imediatamente. Esse procedimento não é habitual, mas me foi oferecido pelo fato dela conhecer meus horários e saber que como autônomo, isso me prejudicaria sem necessidade. Foi o que fiz. Mesmo assim, quase me atrasei para a turma das 9h.

Como a academia fica quadras da minha casa, eu saí e fui embora a pé assim que terminei minha aula. No caminho o meu amigo, dono da festa, me buzinou e parou o carro. "E ai, está mais tranquilo?", ele disse. Eu respondi que estava tudo numa boa. "Ficarei muito triste se não for na minha festa, não vou perdoar", mas eu insisti dizendo que não estava em condições no momento, que devido aos meus problemas eu estava tomando remédios que não me deixavam beber, etc. Mas o papo continuava. A insistência da parte dele continuava. E eu na negativa... Eu só pensava: "que raios a pessoa não consegue entender que a outra não está bem".

Então veio a pergunta: "mas o que você tem afinal?"

A resposta foi vomitada junto com um choro de raiva entalado: "quer saber o que eu tenho? Eu tenho HIV, é isso que eu tenho! Tá tudo uma bosta, eu vivo dentro daquele Centro de Saúde, não paro de fazer exames e não sei o que vai acontecer comigo, estou tomando uma penca de remédios para esses furúnculos e com uma infecção no pulmão... então não estou com clima de festa entende? Eu não aguento mais...."

Claro que o que comecei com raiva, acabou me fazendo desabar em choro debruçado no vidro da janela do carro.

Ele me disse com os olhos arregalados balançando a cabeça: "não, tu não".

Depois de um silêncio de uns dois minutos, ele foi trabalhar, disse que me compreendia, mas que deixaria dois ingressos VIP's caso eu mudasse de ideia. "Te cuida", e foi embora.

A amizade é interessante. Não estou cobrando nada deste amigo. Mas não tinha como não perceber que antes da minha confissão nos víamos praticamente toda semana e depois dela nós vimos cinco vezes no máximo até o dia de hoje, todas por acaso.

Ele nunca me mandou uma mensagem me perguntando como estava meu tratamento, nunca me perguntou se eu estava bem ou se precisava de algo.

Minto, uma semana depois da minha confissão, ele me chamou me perguntando como eu estava e logo depois pediu a arte original da festa para ele passar para outra pessoa.

Acontece... é a vida. Não guardo mágoas. Não julgo. 

HIV/AIDS - Confissões de um soropositivoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora