CONFISSÃO #18: EU PERCEBI QUE FALAR SOBRE HIV AJUDARIA OUTRAS PESSOAS

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PARTE 44 -

Mais um dia 1º de dezembro estava chegando. Neste ano eu poderia finalmente começar uma militância um pouco mais aprofundada. Agora que o povo LGBT da cidade todo sabia da minha sorologia, que minha família e amigos estavam sabendo pouco a pouco, eu tinha que partir para um próximo passo.

Aos poucos a necessidade de falar sobre isso começou a brotar em mim. Assim como há pouco tempo eu era um ignorante sobre o assunto, eu ficava imaginando quantos mais não sabiam nada sobre HIV e AIDS. Eu sequer sabia, por exemplo, sobre o PEP. Não que pudesse ter feito diferença para mim, mas poderia fazer para várias outras pessoas.

Então resolvi finalmente vestir a camiseta. Eu já estava terminando meu ano letivo como professor em uma escola particular da cidade, no qual eu lecionava Xadrez. Eu sabia que começar a militar pela causa LGBT com mais presença e falar sobre HIV/AIDS poderia causar estranheza e rejeição por parte dos pais. Eu trabalhava com crianças. Particularmente acho que quando mais cedo se conhece a diversidade é melhor para amadurecer e crescer respeitando diferenças. Mas sabemos como funcionam as escolas particulares. Militância e ativismo não são bem aceitas. Então entreguei a turma.

Fui até o COAS e falei com uma das enfermeiras. Pedi uma camiseta que eles tem lá. Ela diz "Fique Sabendo", como incentivo ao teste para HIV. Então foi esse o tema da minha campanha de 2014. Fui até o LuLi Foto e Video, estúdio fotográfico que costumo fazer meus books e fiz algumas fotografias com a camiseta e camisinhas.

No dia 1º de dezembro de 2014 postei em minha página profissional a foto escolhida com a hashtag , além de um grande texto sobre a importância de fazer o teste para HIV e os procedimentos caso ele dê positivo. Pode parecer pouca coisa, mas foi minha primeira manifestação realmente ativista pública no Facebook. Foi muito importante para mim.

 Foi muito importante para mim

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PARTE 45 - NÃO!!!

O ano de 2014 estava quase terminando e para minha felicidade carregava um sentimento mais otimista do que em 2013. Diferente das prévias festas de fim de ano, nas quais eu só queria ver o fim de uma vez por todas, agora eu queria comemorar. Tinha decidido que no Natal eu ficaria em casa com minha família, mas nas celebrações de fim de ano, eu definitivamente teria que sair e comemorar.

Meu pai fez alguns trabalhos artísticos para o organizador do Réveillon do Tênis Clube Rido Branco da cidade, festa clássica no fim de ano daqui. Como não pediu pagamento, em retribuição, ganhamos quatro entradas para a festa. Para mim estava perfeito já que o ingresso não era muito barato.

O sentimento daquela noite estava tão agradável, tudo com uma energia positiva, que decidi beber. Eu tinha recebido de presente de fim de ano de alguns alunos e chefes várias champanhas. Bebi uma delas, praticamente sozinho, mas reunido com minha família durante a noite de ano novo. Deixei meus remédios para tomar mais tarde, assim não teria sono. Pensei comigo, "enquanto estiver dançando, posso tomar eles, não terei sono".

Eu tinha ficado de encontrar uma amiga dentro do clube, mas não encontrei, então comprei uma cerveja e fui até onde meu irmão estava com sua namorada e alguns amigos. Nisso já eram quase 3 da madrugada e eu decidi que deveria tomar meus remédios, já teria passado muito tempo. Meu irmão me avisou para não tomar... Me disse para esperar chegar em casa.

Dez minutos. Esse foi o tempo necessário para eu quase desmaiar. A mistura de bebidas com o medicamento não funcionaram bem. Eu tive que me sentar, esperar eu conseguir ficar de pé para meu irmão me levar para casa carregado. Minha sorte é que moramos duas quadras do clube. Eu mal conseguia mexer as pernas e quase fiquei inconsciente.

Por mais que eu estivesse um pouco alcoolizado, eu não estava bêbado a esse ponto até me medicar. Depois deste episódio comecei a sentir alguns dos fortes efeitos colaterais novamente. Um ano depois e eles estavam voltando. Comecei a ficar preocupado. Muita coisa passou pela cabeça.... Uma delas era que o vírus poderia estar tomando força. Na minha cabeça naquele momento isso tinha alguma relação.

Fui até o COAS e perguntei para a enfermeira. Neste momento havia uma senhora ali na sala de espera. Eu perguntei no balcão mesmo, nunca me preocupei muito com isso. E foi bom eu ter feito isso. Durante minha conversa com a atendente aquela senhora interrompeu. "Olha, sempre que eu bebia eu sentia isso, por isso quando eu sei que vou beber, eu não tomo eles, vai ver que não vai se sentir mal". Na mesma hora a enfermeira e eu gritamos juntos: "Não!!!!"

Pobre senhora, não tinha tanta informação como eu. Por isso muito tratamento não dá certo. Explicamos para ela que os remédios não podem ser deixados de lado nenhum dia, nem quando beber. Eu fui embora refletindo sobre aquela cena com tristeza. Se eu não tivesse falado sobre aquilo abertamente na recepção, aquela senhora seguiria fazendo tudo errado. Ela poderia morrer por isso. Cada vez mais eu me convencia que tinha que começar a falar mais sobre o HIV, mais sobre prevenção e esclarecer o que pudesse.

Sobremeus fortes enjoos? Bom, segundo a enfermeira poderia ter sido devido a trocado laboratório fornecedor ou consequência do álcool mesmo. Afinal, meu fígadonão é mais o mesmo. Em menos de duas semanas eles pararam e nunca mais os sentinovamente. 


* PEP - PEP significa Profilaxia Pós-Exposição. É uma forma de prevenção da infecção pelo HIV usando os medicamentos que fazem parte do coquetel utilizado no tratamento da Aids, para pessoas que possam ter entrado em contato com o vírus recentemente, pelo sexo sem camisinha. Esses medicamentos, precisam ser tomados por 28 dias, sem parar, para impedir a infecção pelo vírus, sempre com orientação médica. Essa forma de prevenção já é usada com sucesso nos casos de violência sexual e de profissionais de saúde que se acidentam com agulhas e outros objetos cortantes contaminados. Via PEP Sexual.

HIV/AIDS - Confissões de um soropositivoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora